Em meio a uma paisagem que desafia a própria noção de realidade, Mariko Mori surge como uma figura etérea, vestida em branco imaculado. Yuputira House, seu lar e estúdio em Miyako Island, é um reflexo dessa visão futurista, uma estrutura perolada que parece flutuar entre o mar e o céu. Mori, que veste branco há quase 30 anos após uma experiência espiritual transformadora, não apenas habita esse espaço, mas parece transcender o tempo e o espaço, antecipando questões que hoje definem nossa relação com a tecnologia e a própria identidade.

Desde seus primeiros trabalhos, como a série “Cyborg” dos anos 90, onde se apresentava como uma robô sexualizada ou uma executiva com orelhas pontudas servindo chá, Mori já explorava a fusão entre o humano e o artificial. Sua obra Nirvana, premiada na Bienal de Veneza em 1997, era uma instalação audiovisual que a retratava como uma divindade cibernética, flutuando em uma flor de lótus. Essas criações, embora inicialmente enigmáticas, tocavam em temas que hoje são centrais: a imagem e o eu, o poder e as limitações da tecnologia em nos conectar, e a tênue membrana entre o mundo real e suas representações digitais. A artista, que se formou em moda e trabalhou como modelo, utilizou a linguagem visual e a estética da moda como um vocabulário para expressar ideias complexas, tornando sua arte acessível tanto para galerias quanto para revistas.

O Prenúncio da Era Digital

Criada em Tóquio por um pai inventor e uma mãe historiadora de arte, Mariko Mori cresceu em um ambiente que estimulava a curiosidade e o questionamento. A arte, para ela, sempre foi uma ferramenta poderosa de expressão, uma descoberta que se aprofundou após seu período de estudos no exterior, em Londres e Nova York. Ao retornar ao Japão, Mori percebeu o quão reprimida era a vida social das mulheres em comparação com o Ocidente. Essa percepção a impulsionou a investigar a identidade feminina na cultura japonesa contemporânea através da autorrepresentação. O universo otaku, com seus jogos e animações, tornou-se um terreno fértil para a criação de novas realidades. Em obras como “Subway”, ela se materializa como uma ciborgue em um trem lotado, e em “Birth of a Star”, surge como um ídolo J-pop cyberpunk em um cubo de luz branca. Essas representações anteciparam a forma como, anos depois, as redes sociais nos permitiriam construir e projetar nossas próprias identidades digitais, tornando-nos avatares em um mundo cada vez mais virtual.

Da Sociedade à Consciência Interior

A transição de Mori de um foco na sociedade para uma exploração da consciência interior marcou uma nova fase em sua carreira. A série “Esoteric Cosmos” (1996) a apresentava em cenários naturais grandiosos, como cavernas e montanhas, visualizando conceitos budistas de iluminação e nirvana. Embora ainda presente em suas obras, o corpo físico de Mori começava a dar lugar a uma introspecção mais profunda, expressando estados de consciência mais abstratos. Essa jornada culminou em “Wave UFO” (2003), uma instalação em forma de ovo de baleia que buscava conectar os visitantes através de suas ondas cerebrais, traduzindo a atividade neural em imagens em uma tela abobadada. Lançada em um período pós-11 de setembro, a obra ressoou com a necessidade humana de conexão em um mundo fragmentado, uma necessidade que Mori reconhece como ainda premente hoje. A artista vê a tecnologia como uma facilitadora dos sonhos humanos, mas é clara sobre suas limitações, especialmente quando se trata de inteligência artificial.

IA: Ferramenta ou Criadora?

Mori vê a IA como um “excelente engenheiro de sistemas” e uma ferramenta de apoio, mas mantém uma visão crítica sobre sua capacidade criativa. “A IA ainda não é verdadeiramente criativa; ela sempre copia, sempre referencia algo que já existe”, afirma. Para ela, a essência da arte reside na capacidade humana de visualizar o inédito, de trazer algo genuinamente novo ao mundo, algo que a IA, em seu estado atual, ainda não consegue replicar. Essa distinção é fundamental para entender a singularidade de sua própria obra, que, ao longo de três décadas, tem se mantido à frente de seu tempo. Sua recente exposição no Mori Art Museum em Tóquio, após 24 anos, não é apenas uma retrospectiva, mas uma oportunidade de constatar o quão visionária ela foi.

O Legado de uma Vidente

O trabalho de Mariko Mori, que mescla moda, tecnologia, espiritualidade e uma profunda reflexão sobre a condição humana, continua a inspirar e a provocar. Suas obras, como a escultura de vidro conectada a um observatório de neutrinos que brilha quando uma estrela distante morre, ou a série “Stone” que reflete a luz em esculturas translúcidas inspiradas em locais sagrados japoneses, demonstram uma busca constante por expressar o inefável. A artista, que já foi descrita como “uma artista japonesa um tanto excêntrica”, provou que a persistência e uma visão clara podem superar rótulos e barreiras. Em um mundo cada vez mais imerso em realidades virtuais e inteligência artificial, a obra de Mori nos convida a refletir sobre o que significa ser humano e qual o papel da arte na exploração do desconhecido. A questão permanece: em um futuro cada vez mais moldado pela tecnologia, onde reside a verdadeira originalidade e a essência da criação humana?

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Highsnobiety