Sob o parque Søndermarken, em Copenhague, a experiência da ópera antecede a visão. Em um antigo reservatório submerso, a água pinga, poças refletem a pouca luz e um som grave reverbera, expandindo-se para além das telas que dão início à performance. A instalação "Seven Deaths", de Marina Abramović, propõe uma jornada ao coração de sete mortes operísticas, revividas pela própria artista em curtas-metragens, acompanhada pela voz inesquecível de Maria Callas. O espectador é convidado a se mover por esse espaço sombrio e úmido, reencontrando a artista em seu fim repetidas vezes.
A obra se debruça sobre o destino de heroínas de óperas célebres, cujas vidas terminam de maneiras distintas: Violetta sucumbe à tuberculose em "La Traviata"; Tosca lança-se de uma ponte; Desdêmona é assassinada por Otelo; Carmen, por Don José. Abramović, no entanto, unifica essas narrativas em um único corpo que morre e renasce em cada nova projeção. Sem reproduzir a encenação original, os filmes conferem às mortes uma escala cinematográfica, centrando a ação no corpo da artista. O título já antecipa o desfecho, mas a força da obra reside na contemplação do "como" e na duração da imagem, que, em seu ritmo lento, convida a um olhar desconfortável, mas necessário.
A Experiência Imersiva e a Dança do Público
A experiência em "Seven Deaths" é marcada por um ritmo compartilhado. Uma única projeção por vez estabelece uma cadência comum entre os espectadores. Ao adentrar um dos pequenos teatros improvisados na penumbra, o público se junta a um grupo já absorto, senta-se e, ao fim do filme, levanta-se em uníssono. Murmúrios baixos e o som de passos substituem o canto, guiando o grupo pela escuridão em direção à próxima tela. Essa migração constante é parte intrínseca da obra, transformando a contemplação em um exercício prático de locomoção. Diferente de um teatro tradicional, onde o público permanece fixo e o cenário muda, aqui é o espectador quem se desloca, refazendo o caminho entre as mortes. A escuridão impede uma visão panorâmica da instalação, tornando a descoberta de cada espaço uma aventura particular, enquanto o som, a umidade e o gotejar da água se mantêm como presenças constantes, invadindo a cena projetada.
A Voz que Transcende o Corpo
A ópera, por natureza, dedica árias memoráveis às mulheres em seus momentos finais, conferindo-lhes uma presença extraordinária. A voz cantada, em sua plenitude, ancora o espectador em um sentimento, permitindo-lhe permanecer ali, mesmo ciente do trágico fim. "Seven Deaths" sublinha essa dicotomia ao separar a voz do corpo que se vê. Marina Abramović encarna as mortes, mas é Maria Callas, através de gravações de sua vida, quem empresta a voz à performance. Essa dissociação torna-se particularmente palpável no ambiente subterrâneo, onde o som parece ocupar um espaço físico maior que a imagem. A voz de Callas, que morreu em 1977, ressoa para novas gerações, conferindo uma continuidade à sequência de mortes que as imagens, por si só, interrompem repetidamente.
O Tempo do Espectador e a Reflexão sobre o Fim
Marina Abramović descreve a obra como uma troca direta: "vocês me dão o seu tempo, e eu morro por vocês sete vezes". Esse tempo do espectador inclui os solenes intervalos entre os filmes, os momentos de espera, a breve convivência com desconhecidos no percurso e a busca pela próxima tela. O grupo, através desse movimento repetido, desenvolve uma familiaridade silenciosa, compartilhando a mesma sequência, a mesma jornada. A artista amplia a reflexão para além das mortes literais das personagens: "você morre muitas vezes na vida, e ainda assim continua vivendo". "Seven Deaths" confere a essa ideia um ritmo físico. Após cada fim, há ainda um trecho do reservatório a ser cruzado, um novo convite para se levantar, com a água gotejando e a voz de Callas ecoando, em busca da próxima tela, da próxima morte, da próxima vida.
A performance de Marina Abramović em "Seven Deaths" não é apenas uma obra de arte, mas um convite à introspecção sobre a natureza da morte, da vida e do tempo. Ao nos colocar em movimento em um espaço sombrio e ressonante, a artista nos força a confrontar a mortalidade de forma repetida e, paradoxalmente, a reafirmar a continuidade da existência. A experiência, que se estende até novembro de 2026, promete continuar a provocar reflexões sobre o espetáculo da morte e a resiliência do espírito humano.
Com reportagem de Brazil Valley
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