A luz azul da televisão ainda domina as salas de estar ao redor do mundo, insistindo em um protagonismo que muitos analistas de tecnologia, apressados em suas previsões, já haviam declarado como obsoleto. Sentado em seu escritório, Mark Douglas, CEO da MNTN, observa essa persistência não como um suspiro final de um meio moribundo, mas como a fundação de um ecossistema em plena mutação. Para ele, a ideia de que a TV está morrendo é uma simplificação que ignora a profundidade da experiência de tela grande. Em vez de desaparecer, o meio está sendo reconfigurado por uma convergência de streaming e inteligência artificial que, pela primeira vez, coloca o poder de compra de anúncios televisivos nas mãos de empresas que antes só podiam sonhar com o horário nobre.

Douglas não nega a fragmentação da audiência, mas argumenta que a força gravitacional da televisão, como o meio mais potente de entretenimento, permanece inabalável. O que mudou não é o desejo do espectador por grandes produções, mas a mecânica por trás da entrega desses conteúdos. Segundo reportagem da Bloomberg, o executivo defende que a televisão está vivendo um renascimento técnico. A transição para o streaming não é uma ruptura definitiva com o passado, mas uma extensão da capacidade de alcance, onde a publicidade deixa de ser um tiro no escuro para se tornar uma peça de precisão cirúrgica, acessível até para marcas de nicho que antes eram excluídas pelos custos proibitivos das redes tradicionais.

A resiliência do formato em um mundo de telas pequenas

A televisão sempre carregou um peso cultural que o smartphone, com sua natureza efêmera e solitária, jamais conseguiu replicar. Existe uma dimensão comunitária na experiência de assistir a um evento ao vivo ou a uma série de prestígio na tela grande da sala que permanece como um pilar da cultura de massa. Douglas sugere que, embora o streaming tenha alterado o cronograma de consumo, ele não diminuiu a relevância do conteúdo televisivo. Pelo contrário, o streaming deu vida nova a bibliotecas de conteúdo que, em outros tempos, seriam esquecidas em arquivos analógicos.

Essa resiliência é estrutural. A televisão oferece uma imersão que os dispositivos portáteis não conseguem sustentar por longos períodos. Quando as pessoas se reúnem para assistir a um grande evento esportivo, como a Copa do Mundo, a TV deixa de ser apenas um eletrodoméstico e se transforma no centro de uma experiência social compartilhada. É essa capacidade de unificar audiências em tempo real que garante à televisão uma posição de privilégio, mesmo em um cenário onde o conteúdo sob demanda parece ditar o ritmo do cotidiano.

IA como o grande nivelador da produção publicitária

Talvez a mudança mais significativa apontada por Douglas seja a democratização da produção publicitária através da inteligência artificial. Historicamente, criar um anúncio para a TV exigia orçamentos de Hollywood, equipes gigantescas e meses de planejamento, o que criava uma barreira de entrada intransponível para a maioria das startups e pequenas empresas. Com as novas ferramentas de IA, o custo de produção de vídeos de alta qualidade caiu drasticamente, permitindo que marcas menores testem criativos com a mesma agilidade que antes era restrita às gigantes do varejo.

Essa transformação altera o incentivo dos anunciantes. Se produzir um anúncio torna-se algo acessível e rápido, a TV deixa de ser um canal de exposição apenas para o lançamento de produtos globais e passa a servir como um canal de performance. O mecanismo aqui é claro: a tecnologia remove a fricção da criatividade. Quando o custo de falhar diminui, a inovação publicitária floresce, e a televisão, antes vista como um meio estático, começa a se comportar com a fluidez de uma campanha digital de busca ou rede social.

O impacto nos stakeholders e a nova economia da atenção

Para os reguladores e grandes redes, essa mudança traz tensões inevitáveis. A democratização do acesso à publicidade na TV significa que o controle sobre o inventário de anúncios está sendo descentralizado, forçando as emissoras tradicionais a repensarem seus modelos de venda. A concorrência agora não é apenas entre emissoras, mas entre qualquer marca que possua um criativo bem feito e a capacidade de segmentar sua audiência através de plataformas de streaming. O consumidor, por sua vez, pode esperar uma publicidade mais relevante, embora a pressão por atenção continue a crescer em um ambiente de oferta infinita.

No Brasil, onde a televisão aberta ainda mantém uma penetração cultural profunda, esse movimento de digitalização da publicidade televisiva tem paralelos claros com a migração dos investimentos de marketing para plataformas conectadas. A transição não é apenas sobre tecnologia, mas sobre a adaptação de um mercado que sempre valorizou a escala. A capacidade de unir a escala da TV com a precisão do digital é o novo campo de batalha onde marcas brasileiras e globais medirão sua relevância nos próximos anos.

O horizonte de incertezas e a busca por relevância

O que permanece em aberto é como a saturação publicitária afetará a experiência do espectador. À medida que mais anunciantes entram na arena da TV via streaming, a linha entre conteúdo e publicidade se torna cada vez mais tênue, levantando questões sobre a qualidade da experiência de visualização. A eficácia da IA em personalizar anúncios será testada pela resistência do público a interrupções, um desafio que as plataformas ainda precisam navegar com cautela para não alienar a base que buscam conquistar.

Observar os próximos grandes eventos globais será fundamental para entender se essa nova dinâmica de publicidade por IA conseguirá sustentar o interesse em larga escala. A TV continuará sendo a tela principal da casa ou ela se tornará apenas um dos muitos monitores conectados em um ambiente de atenção fragmentada? A resposta, ao que tudo indica, reside menos na tecnologia em si e mais na habilidade das marcas em contar histórias que justifiquem o tempo que o espectador dedica a elas.

O futuro da televisão não parece ser uma tela apagada, mas uma interface viva que se adapta, em tempo real, aos desejos de quem observa. A grande questão que paira sobre o mercado não é se a TV sobreviverá, mas se ela conseguirá manter a sua aura de evento em um mundo que, cada vez mais, prefere o imediato ao memorável. O tempo dirá se o brilho da tela grande é um reflexo do passado ou o farol de uma nova era de consumo. Com reportagem de Bloomberg

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