Até o final desta década, a forma como consumimos e realizamos transações financeiras pode ser radicalmente transformada. Um relatório recente da Mastercard, em colaboração com quatro proeminentes futurologistas globais, projeta que aproximadamente uma em cada dez pessoas utilizará agentes de Inteligência Artificial (IA) de forma regular para fazer compras e efetuar pagamentos até 2030. Essa previsão, intitulada "A Breve História do Futuro das Compras e dos Pagamentos", indica uma mudança significativa no papel da IA no cotidiano, passando de uma ferramenta de auxílio à decisão para um executor de transações autônomo.

O relatório sugere que as compras rotineiras, como a aquisição de supermercado, medicamentos e assinaturas, serão as primeiras a serem delegadas a esses agentes de IA. Magnus Lindkvist, um dos futurologistas que contribuíram para o estudo, aponta que "comprar e fazer compras não significarão mais a mesma coisa". A expectativa é que os agentes de IA assumam as tarefas de aquisição de bens essenciais e recorrentes, permitindo que o ato de "ir às compras" se torne uma atividade voltada para a descoberta, inspiração e prazer.

Um Novo Cliente no Varejo: O Agente de IA

A ascensão dos agentes de IA como compradores levanta novas demandas para o setor varejista. Esses agentes serão capazes de processar grandes volumes de dados em tempo real, analisar declarações de marcas, verificar avaliações de clientes e comparar preços de forma eficiente. Para atender a essa nova clientela, os varejistas precisarão adaptar seus programas de fidelidade, estratégias de relacionamento com o cliente e experiências digitais. Isso implica em disponibilizar informações sobre produtos, alegações de marketing e políticas comerciais em formatos legíveis por máquinas, como certificados de sustentabilidade que possam ser facilmente verificados por um agente.

A necessidade de adaptar sistemas e dados para a interação com agentes de IA representa um desafio e uma oportunidade para as empresas. A capacidade de fornecer dados claros, verificáveis e estruturados será crucial para que os agentes possam tomar decisões de compra informadas e seguras em nome dos consumidores. A transição para um comércio agêntico exigirá um investimento significativo em infraestrutura tecnológica e na reformulação de processos internos.

A Confiança Como Pilar da Transição

O relatório da Mastercard destaca a confiança como o fator central para a adoção generalizada do comércio agêntico. Historicamente, cada grande evolução no comércio, desde os mercados de rua até o e-commerce, foi impulsionada por uma mudança na forma como os consumidores depositavam sua confiança. O comércio agêntico representa um aprofundamento dessa dinâmica, pois as pessoas não apenas confiarão na tecnologia para informar suas escolhas, mas também para executá-las.

Para conquistar e manter essa confiança, Theodora Lau, outra especialista envolvida no relatório, prevê que estabelecimentos comerciais e instituições financeiras precisarão estabelecer estruturas claras de identidade, consentimento, autorização e responsabilidade. A especialista antecipa que, até 2030, pelo menos três reguladores do G20 emitirão diretrizes formais sobre o registro e monitoramento de agentes de IA. A intenção de pagamento, ou seja, a autorização prévia do consumidor para que um agente realize uma compra, ganhará um valor estratégico equivalente ao próprio pagamento, tornando-se um ponto crítico na jornada de compra.

O Comércio Agêntico Já Começa no Brasil

Embora o relatório foque em projeções para 2030, os primeiros indícios do comércio agêntico já são visíveis no cenário global e local. A Mastercard tem atuado na vanguarda dessa inovação, com demonstrações práticas de como o comércio impulsionado por IA está saindo do campo conceitual para a realidade. Na América Latina, e especificamente no Brasil, a empresa já realizou transações de pagamento ao vivo utilizando o Agent Pay. Essas operações envolveram compras do cotidiano, como itens de beleza e supermercado, iniciadas e concluídas por agentes de IA com o consentimento e autorização prévia dos titulares dos cartões.

Esses experimentos demonstram a viabilidade e a segurança das transações realizadas por agentes de IA, sinalizando um futuro onde as máquinas são confiáveis para transacionar em nosso nome. A colaboração com parceiros locais, como Itaú, Santander e Dock, reforça o compromisso do ecossistema brasileiro em se preparar para essa nova era do comércio. A tecnologia Agent Pay, ao permitir que agentes de IA realizem compras em nome dos consumidores, abre caminho para um futuro onde a eficiência e a conveniência serão aprimoradas.

Perguntas em Aberto para o Futuro

Apesar das projeções ambiciosas, diversas questões permanecem em aberto sobre a consolidação do comércio agêntico. A velocidade de adoção por parte dos consumidores, a capacidade dos varejistas de se adaptarem rapidamente às novas demandas e a evolução do arcabouço regulatório são fatores cruciais que moldarão esse futuro. A garantia de segurança cibernética e a proteção contra fraudes em transações realizadas por IA também serão desafios constantes.

O caminho para 2030 será marcado por aprendizados e adaptações contínuas. Será fundamental observar como as empresas de tecnologia, instituições financeiras e varejistas colaborarão para construir um ecossistema de comércio agêntico confiável e seguro. A forma como a sociedade lidará com as implicações éticas e sociais da delegação de decisões de consumo a algoritmos também definirá a trajetória dessa transformação.

O relatório da Mastercard lança luz sobre um futuro onde a IA não apenas auxilia, mas executa as tarefas de compra, redefinindo a relação entre tecnologia, consumo e confiança. A jornada para integrar plenamente agentes de IA em nosso cotidiano de compras está apenas começando, prometendo reconfigurar a experiência do consumidor e as operações do varejo nas próximas décadas. A preparação para essa mudança, tanto por parte das empresas quanto dos consumidores, é um passo essencial para navegar com sucesso nessa nova era. Com reportagem de Brazil Valley

Source · TIInside