A era das grandes redes hoteleiras espanholas em Cuba chegou ao fim. Após três décadas de operação, a Meliá, maior nome do setor, anunciou que encerrará todas as suas atividades na ilha nesta sexta-feira, 24 de julho. O movimento segue decisões similares de outras gigantes ibéricas, como Iberostar e Barceló, e encerra um ciclo iniciado em 1990 com um acordo entre o fundador da Meliá, Gabriel Escarrer, e Fidel Castro.
Em comunicado ao órgão regulador do mercado espanhol, a companhia citou “significativas dificuldades operacionais, legais, econômicas e financeiras” que impossibilitam uma “estabilidade operacional mínima”. A leitura, no entanto, vai além do jargão corporativo. A saída da Meliá é o sintoma final de uma aposta que azedou: a de que o investimento estrangeiro poderia prosperar em Cuba apesar do impasse geopolítico com os Estados Unidos. A realidade provou o contrário.
Um negócio estrangulado
A decisão da Meliá não foi política, mas econômica. Os números, reportados pelo portal Metro Quadrado, mostram um negócio em colapso. No primeiro trimestre, a receita por quarto disponível da rede em Cuba foi de apenas € 34,4, menos da metade da média global da companhia, de € 84. A taxa de ocupação de suas 34 propriedades na ilha amargava 34,1%, muito abaixo dos 58,8% do portfólio geral.
Esses indicadores são o resultado direto do estrangulamento da economia cubana, intensificado pelo embargo americano. Com acesso restrito a combustível e suprimentos, a operação hoteleira tornou-se insustentável. A dificuldade de abastecer os resorts e a própria locomoção dos hóspedes derrubaram a ocupação e a viabilidade financeira. O fechamento, portanto, apenas formaliza uma situação que já se deteriorava há meses, com a rede operando com apenas metade da capacidade instalada desde março.
A mão de Washington
O pano de fundo da derrocada é a escalada da pressão americana. Desde janeiro de 2025, o governo dos EUA, sob a liderança do Secretário de Estado Marco Rubio, implementou uma política de “pressão total”, impedindo ativamente a entrada de dólares e sancionando empresas que negociam com o regime cubano. A justificativa oficial de Washington é o suposto apoio de Cuba a atividades terroristas.
Para empresas europeias como a Meliá, a aposta de longo prazo era que o regime cubano se abriria ou que os Estados Unidos aliviariam as sanções. Nenhuma das duas premissas se concretizou. O resultado é um ambiente de negócios onde o risco geopolítico superou qualquer potencial de retorno, deixando um vácuo no setor de turismo da ilha e um alerta para outros investidores internacionais que ainda operam em escala reduzida.
A saída da Meliá não é apenas o fim de um capítulo para a empresa, mas um marco simbólico do fracasso de uma estratégia de engajamento econômico com Cuba. A questão que fica no ar não é sobre quem ocupará os hotéis deixados para trás, mas sobre qual modelo de investimento estrangeiro, se é que algum, é viável em um país preso entre suas próprias crises e a pressão externa.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Metro Quadrado





