Os ministérios ligados ao partido Sumar, parte da coalizão que governa a Espanha, manifestaram formalmente sua oposição ao novo Documento de Regulação Aeroportuária (DORA III). O plano, que define os investimentos e a gestão dos aeroportos do país para os próximos anos, foi classificado como "absurdo" pela legenda, segundo reportagem da Forbes España.

A crítica do Sumar não é um mero detalhe político, mas o sintoma de uma tensão crescente na Europa: o conflito entre o crescimento econômico impulsionado pelo turismo de massa e as metas de descarbonização. A tese do partido é que expandir a capacidade dos aeroportos é incompatível com a agenda climática e agrava crises sociais, como a da habitação, em áreas de alta pressão turística.

Crescimento a que custo?

A principal contradição apontada pelo Sumar é a falta de coerência da política pública. Para o partido, "não serve de muito descarbonizar os terminais se ao mesmo tempo se aumenta a capacidade para que voem mais aviões". A legenda critica o fato de o plano comprometer investimentos bilionários, como na ampliação do aeroporto de El Prat, em Barcelona, antes mesmo da conclusão de complexos trâmites ambientais, o que consideram uma falha de planejamento.

O movimento também denuncia a ausência de diálogo com os municípios diretamente afetados, que teriam seu futuro condicionado por décadas sem participação no processo de consulta. A leitura aqui é que o debate sobre infraestrutura de transporte está mudando de eixo: a questão deixa de ser apenas sobre capacidade e passa a ser sobre o modelo de desenvolvimento que se deseja fomentar, colocando em xeque a premissa de crescimento a qualquer custo.

O dilema do turismo

O Sumar conecta diretamente a expansão da malha aérea a problemas sociais tangíveis, como a saturação de serviços públicos e a crise imobiliária em regiões como Catalunha e Ilhas Baleares. Ao fazer isso, a legenda transforma um debate técnico sobre regulação em uma pauta com forte apelo popular, tocando em dificuldades do dia a dia da população local.

A resposta proposta não é simplesmente frear o desenvolvimento, mas redirecioná-lo. O partido defende que os investimentos públicos sejam prioritariamente alocados na expansão da malha ferroviária para substituir voos de curta e média distância. Esta é uma visão clássica de transição verde, onde um modal de alta emissão de carbono é substituído por um de baixa emissão, buscando um modelo econômico menos dependente do turismo massivo.

O posicionamento do Sumar força uma discussão que muitas economias, inclusive a brasileira em suas devidas proporções, preferem adiar. A questão não é se o turismo deve existir, mas qual modelo é sustentável a longo prazo. A disputa em torno do DORA III na Espanha é menos sobre um documento técnico e mais sobre a definição de qual futuro se quer construir: um baseado na expansão ilimitada ou um que reconhece os limites planetários e sociais.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España