O mercado de créditos de carbono nos Estados Unidos em 2026 revela uma dependência acentuada de soluções baseadas na natureza e em práticas de mitigação consolidadas. Segundo dados do Voluntary Registry Offsets Database da UC Berkeley, o setor de florestas e uso da terra lidera o cenário, respondendo por 46% dos créditos emitidos. A análise, que mapeia a distribuição por tipologia de projeto, destaca a predominância de modelos tradicionais em detrimento de tecnologias emergentes.

Embora o debate sobre a neutralidade de carbono aponte para a necessidade de soluções de engenharia, a realidade do registro aponta para uma concentração em quatro categorias principais: florestas, captura de metano, gases industriais e refrigerantes. Juntos, esses grupos representam mais de 90% de todos os créditos emitidos no país, evidenciando uma preferência do mercado por projetos que já possuem escala e validade histórica comprovada.

O peso das soluções baseadas na natureza

O domínio dos projetos de florestas e uso da terra, com 586 iniciativas e 266 milhões de créditos, sublinha o papel central que a gestão de ecossistemas desempenha nas estratégias de descarbonização corporativa. Esse modelo, que engloba desde o reflorestamento até a restauração de zonas úmidas, oferece uma via de mitigação de custo operacionalmente mais simples para empresas que buscam compensar suas emissões imediatas.

Por outro lado, a captura de metano e a gestão de refrigerantes ocupam posições de relevância, somando, respectivamente, 18% e 12% do volume total de emissões. A eficácia desses projetos reside na capacidade de evitar a liberação de gases de alto potencial de aquecimento global, consolidando-se como pilares fundamentais para as metas de curto e médio prazo das corporações americanas.

A estagnação da captura de carbono tecnológica

Em contraste com a escala dos projetos naturais, a tecnologia de captura de carbono apresenta números modestos. Com apenas 12 projetos registrados e uma fatia de 4% do total de créditos, o setor enfrenta dificuldades para ganhar tração. Apesar de ser apontada por especialistas como indispensável para o tratamento de emissões de difícil mitigação, a tecnologia ainda carece de um pipeline robusto de novos projetos.

O movimento sugere que o mercado ainda não precifica adequadamente o valor estratégico da captura tecnológica, ou que as barreiras de capital e de implementação técnica continuam proibitivas. Desde 2024, apenas dois novos projetos dessa categoria foram integrados ao registro da UC Berkeley, um ritmo que contrasta com as metas nacionais de descarbonização para 2050.

Implicações para o setor elétrico

Para as concessionárias de energia (IOUs), a pressão por descarbonização ocorre em um momento de alta demanda impulsionada por data centers. A leitura é que o playbook atual, centrado em offsets tradicionais, pode se tornar insuficiente. Projetos como o da PPL Corporation em Cane Run, apoiado pelo Departamento de Energia, exemplificam uma tentativa de integrar a captura de carbono ao planejamento de longo prazo.

O desafio para o ecossistema brasileiro é análogo, guardadas as proporções. Enquanto o Brasil possui vantagem comparativa em soluções baseadas na natureza, a necessidade de investir em tecnologias de captura industrial torna-se um ponto de atenção para a transição energética nacional em setores de base, onde a eletrificação pura pode não ser suficiente.

O futuro da integridade dos créditos

Permanece a dúvida sobre como o mercado reagirá à necessidade de maior escala em tecnologias de remoção. A baixa participação de projetos como eólica e captura tecnológica sugere que, sem incentivos regulatórios mais agressivos, o mercado continuará a privilegiar o que é mais barato e disponível hoje.

O monitoramento da evolução desses registros nos próximos anos será crucial para entender se haverá uma migração para métodos de engenharia ou se a dependência de créditos naturais se tornará um gargalo estrutural para as metas climáticas americanas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Visual Capitalist