O receio histórico em relação a eleições presidenciais no Brasil, que costumava paralisar o mercado de fusões e aquisições (M&A) e de dívidas (DCM), parece ter ficado para trás. Um levantamento da consultoria Seneca Evercore revela que, entre outubro do ano passado e setembro deste ano, o volume de transações somou R$ 1 trilhão, um crescimento de 20% em comparação ao período que antecedeu a eleição de 2022. Este é o maior volume já registrado em um período pré-eleitoral, mesmo com juros ainda elevados.

Menos Temor, Mais Negócios

A análise da Seneca Evercore indica uma mudança de comportamento dos investidores. Em eleições passadas, como 2014, 2018 e 2022, o mercado aguardava o resultado eleitoral para retomar suas atividades. Em 2018, por exemplo, o valor movimentado em M&A caiu 1,8% nos 12 meses anteriores à eleição. Em 2022, a queda foi ainda mais acentuada, chegando a 32,7%. Contudo, no período atual, o movimento foi inverso: houve uma alta de 6,4% nas transações.

Daniel Wainstein, co-CEO da Seneca, explica que o mercado aprendeu a precificar os riscos e a operar apesar da incerteza política. Segundo o executivo, a alternância de poder, que antes gerava grande apreensão, agora é vista como um fator de menor impacto. A percepção geral é de que a economia e os negócios continuam a funcionar sob diferentes administrações, o que reduz a paralisia que caracterizava períodos pré-eleitorais anteriores.

Indicadores de Confiança

O Risco Brasil, medido pelo CDS (Credit Default Swap) de cinco anos, corrobora essa percepção. Nos 12 meses anteriores à eleição atual, o indicador manteve-se em torno de 130 pontos-base, significativamente abaixo dos 238 pontos de 2022 e dos 195 pontos de 2018. O nível atual é o menor pré-eleitoral desde 2010, indicando menor preocupação com a dívida soberana e a estabilidade econômica.

O crescimento expressivo do volume transacionado também aponta para um mercado financeiro brasileiro mais maduro e robusto. A expectativa é que, independentemente do resultado eleitoral, haja continuidade e até mesmo oportunidades de ganho no pós-eleição. A percepção dos investidores é que um ajuste fiscal será uma pauta provável para o próximo governo, visando a redução dos juros e a retomada do crescimento, o que sugere que há caminhos para a recuperação econômica em diferentes cenários políticos.

Implicações e Perspectivas

A menor aversão ao risco eleitoral não significa ausência de desafios. O patamar ainda elevado dos juros no Brasil continua a ser um fator limitante para o crescimento. No entanto, a capacidade do mercado de seguir operando e a resiliência demonstrada em diferentes cenários políticos sugerem uma adaptação positiva. A confiança na continuidade das operações, mesmo em meio a mudanças de governo, é um sinal de maturidade do ecossistema financeiro brasileiro.

O cenário aponta para um mercado que, embora atento às dinâmicas políticas, prioriza a estabilidade e a previsibilidade para a tomada de decisões de investimento. A consolidação de R$ 1 trilhão em M&A e dívidas é um marco que reflete essa nova fase, onde a capacidade de adaptação e a confiança na resiliência da economia brasileira prevalecem sobre o temor de instabilidade política.

O que resta observar é como as políticas econômicas futuras, independentemente de quem vença, irão de fato impactar a trajetória de juros e o crescimento sustentável. A capacidade de o país manter este ritmo de transações em um ambiente de juros ainda restritivos será um termômetro importante da sua saúde econômica.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney