O mercado transacional da América Latina encerrou os primeiros nove meses do ano com um movimento agregado de €70,9 bilhões (cerca de US$ 78,8 bilhões), o que representa uma queda de 5% em relação ao mesmo período do ano anterior. Segundo dados da TTR Data, o número de fusões e aquisições (M&A) anunciadas e fechadas totalizou 1.720 operações, um recuo expressivo de 26%.

O terceiro trimestre do ano, em particular, registrou 509 transações com um valor somado de US$ 20,5 bilhões. A análise sugere um cenário de maior cautela por parte dos investidores e empresas na região, impactado por fatores macroeconômicos globais e locais.

Brasil lidera em volume, mas com recuo

O Brasil se manteve como o país mais ativo na região em termos de número de transações, com 968 operações registradas até setembro. No entanto, este número representa uma queda de 31% em comparação com o ano anterior. Apesar do recuo no volume de negócios, o capital mobilizado no país apresentou um aumento notável de 31%, alcançando US$ 49,19 bilhões. Este dado sugere que, embora menos negócios tenham sido fechados, os que ocorreram envolveram valores mais expressivos.

Chile e Argentina seguiram na lista, com 239 e 203 operações, respectivamente. O Chile apresentou uma redução de 12% no número de transações e de 24% no valor, enquanto a Argentina viu um aumento de 4% no volume e 31% no valor mobilizado, totalizando US$ 6,5 bilhões. México e Colômbia também registraram quedas no número de negócios, com a Colômbia se destacando por um aumento significativo no valor das transações em meio à queda no volume.

Desaceleração em capital de risco e private equity

A análise por tipo de transação revela uma desaceleração em segmentos importantes. O capital privado (private equity) registrou 109 operações, movimentando US$ 14,5 bilhões, com uma queda de 20% no volume, mas um expressivo aumento de 97% no valor. O capital de risco (venture capital), por sua vez, contabilizou 272 operações, um recuo de 36% em transações e um valor estável em comparação com o ano anterior, totalizando US$ 3,5 bilhões.

As compras de ativos também apresentaram uma leve retração, com 411 operações e um valor de US$ 14,8 bilhões, ambos com queda percentual de 7% e 5%, respectivamente. Estes números indicam uma tendência geral de contração no mercado transacional, afetando tanto investimentos de maior porte quanto os de menor risco.

Fluxo transnacional e apetite por exterior

Em termos de fluxo transnacional, as empresas latino-americanas demonstraram um apetite considerável por investimentos no exterior, especialmente na Europa (58 operações) e América do Norte (33). Essa tendência sugere uma busca por diversificação geográfica e oportunidades de crescimento fora da região.

Por outro lado, as empresas com maior número de transações na América Latina vieram de América do Norte (283) e Europa (225). Isso reflete o contínuo interesse de investidores internacionais no mercado latino-americano, apesar do cenário de desaceleração geral. A análise aponta para uma dinâmica complexa, onde a cautela interna convive com o interesse externo.

Perguntas em aberto para o futuro

O cenário de queda no volume de transações levanta questões sobre as causas profundas dessa retração. Fatores como a instabilidade política em alguns países, o aumento das taxas de juros globais e a inflação persistente podem estar contribuindo para a aversão ao risco. A resiliência do capital mobilizado no Brasil, apesar da queda no número de negócios, sugere que grandes operações ainda são possíveis, mas a sustentabilidade desse movimento dependerá da estabilidade macroeconômica.

Será crucial observar como o mercado se comportará nos próximos trimestres. A capacidade das economias latino-americanas de mitigar pressões inflacionárias e oferecer um ambiente mais previsível para os negócios será determinante para atrair e reter investimentos. O apetite por ativos no exterior pode ser um indicativo de que as empresas locais buscam caminhos alternativos para expansão, enquanto aguardam um cenário mais favorável em casa.

O mercado transacional latino-americano, embora em retração numérica, ainda apresenta oportunidades, especialmente para investidores estrangeiros e para operações de maior porte. A análise contínua das tendências de M&A será fundamental para entender a evolução econômica da região e os setores que se mostram mais resilientes.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España