A Mercadona, gigante do varejo espanhol, acaba de inaugurar um novo centro de distribuição em Villa de Vallecas, Madrid, que marca uma mudança estrutural em sua estratégia de e-commerce. Diferente das seis unidades anteriores, que operavam com processos manuais, este armazém de 32 mil metros quadrados é a primeira 'Colmeia' semiautomatizada da rede, incorporando 70 robôs dedicados à gestão de 2.700 itens não perecíveis.

O projeto, que demandou um investimento de 54 milhões de euros e a contratação de 700 colaboradores, é peça central para a meta da companhia de cobrir 95% das localidades da região de Madrid ainda este ano. Segundo dados da empresa, a operação online atingiu 1,06 bilhão de euros em 2025, um crescimento de 26% em relação ao período anterior, impulsionado tanto pelas 'Colmeias' quanto por 218 lojas físicas adaptadas para o serviço.

A evolução da logística de proximidade

A estratégia da Mercadona sempre privilegiou a eficiência operacional baseada na capilaridade das lojas físicas. No entanto, a transição para o modelo de 'Colmeias' — armazéns dedicados exclusivamente ao canal digital — reflete a necessidade de separar o fluxo de clientes de loja do fluxo de preparação de pedidos para evitar gargalos.

Historicamente, o varejo alimentar enfrentou dificuldades para tornar o e-commerce lucrativo devido aos altos custos de 'last mile' e à complexidade de picking em lojas convencionais. Ao centralizar a operação em um hub semiautomatizado, a empresa inverte a lógica tradicional: o produto é quem se desloca até o operador, reduzindo drasticamente o tempo de percurso nos corredores e aumentando a precisão do inventário.

O impacto da automação no modelo de negócio

A automação em La Atalayuela não é apenas uma melhoria de produtividade, mas uma resposta à mudança de comportamento do consumidor, que exige velocidade e conveniência. Com a capacidade de atender 5 mil pedidos diários neste novo centro, a Mercadona eleva sua capacidade total na Comunidade de Madrid para 8 mil pedidos por dia, criando uma vantagem competitiva difícil de ser replicada por concorrentes que dependem exclusivamente da estrutura de lojas de bairro para o online.

Vale notar que a empresa mantém uma abordagem híbrida. Enquanto investe pesado na automação para entregas, a rede continua focada em suas seções 'Listo para Comer' dentro das lojas físicas, que geraram 700 milhões de euros em faturamento na Espanha em 2025. O desafio da Mercadona é equilibrar o sucesso do varejo de conveniência presencial com a escalabilidade necessária para dominar o canal digital.

Tensões competitivas no varejo alimentar

O movimento da Mercadona coloca pressão sobre outros players do mercado espanhol e europeu. A eficiência alcançada pela automação permite margens mais saudáveis no canal online, um setor frequentemente marcado por prejuízos operacionais. Para os reguladores e competidores, resta observar se a escala atingida pela empresa forçará uma corrida tecnológica no setor de supermercados.

Além disso, a integração de métodos de pagamento como o Bizum e a acessibilidade da plataforma web para pessoas com deficiência visual demonstram um esforço em reduzir fricções no funil de conversão. A aposta é clara: o consumidor que prefere a conveniência do lar deve ter uma experiência tão fluida quanto o que visita a loja física.

O futuro da distribuição urbana

A sustentabilidade financeira deste modelo de alta automação dependerá da densidade de pedidos que a Mercadona conseguirá manter ao longo dos próximos anos. A capacidade de 8 mil pedidos diários em Madrid é ambiciosa, mas exigirá uma logística de entrega final cada vez mais eficiente para justificar o investimento de 54 milhões de euros.

O setor aguarda para ver se a empresa replicará o modelo de La Atalayuela em outras grandes metrópoles europeias. A questão central é se a automação robótica se tornará o padrão para redes de supermercados que buscam crescer sem sacrificar a rentabilidade operacional, ou se o custo de implementação continuará sendo uma barreira para players menores.

A transição da Mercadona para um modelo de e-commerce automatizado sinaliza que o varejo de massa atingiu um ponto de inflexão onde a tecnologia não é mais um diferencial, mas um pré-requisito para a sobrevivência em grande escala. A eficácia dessa 'Colmeia' será o termômetro para os próximos passos da companhia no mercado digital.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka