A Merck está colhendo resultados concretos com a implementação de agentes de inteligência artificial, conseguindo reduzir em um terço o tempo de ciclos de descoberta científica. Segundo Sean Finnerty, vice-presidente de plataformas digitais da companhia, o sucesso dessas operações não deriva da capacidade dos modelos em si, mas de uma estratégia rigorosa de infraestrutura implementada nos últimos anos. A empresa tem utilizado a tecnologia para automatizar a criação de materiais de marketing altamente regulados, alcançando uma aceleração de até 80% na entrega final com altos níveis de conformidade.

A leitura aqui é que a transição para a IA agentiva exige uma fundação técnica robusta, apelidada pela empresa como a "encanamento" da organização. Finnerty destaca que, sem essa base, o uso de IA tende a gerar soluções isoladas que se transformam rapidamente em dívida técnica, prejudicando a inovação a longo prazo. O foco da Merck tem sido unificar o acesso a dados estruturados e não estruturados espalhados por diversas nuvens e locais de borda.

A estratégia de infraestrutura como alicerce

A abordagem da Merck reflete lições aprendidas durante a adoção da computação em nuvem na década passada, quando a falta de padronização gerou complexidade operacional. Atualmente, a infraestrutura da farmacêutica suporta milhares de contas na AWS, além de integrações com Microsoft Azure e Google Cloud. O desafio atual é replicar esse nível de organização para a orquestração de milhares de agentes autônomos que a empresa pretende colocar em operação.

A gestão desses agentes envolve questões críticas de segurança, registro e contexto. A equipe de Finnerty trabalha na criação de uma estrutura que permite aos agentes acessarem os dados certos no momento adequado. Com petabytes de informações armazenadas em bancos de dados Oracle, SQL e planilhas, a empresa busca evitar soluções únicas, optando por uma arquitetura flexível que integra ferramentas como Databricks e Amazon Redshift, garantindo que os dados estejam prontos para o consumo por modelos de IA.

IA na descoberta e conformidade regulatória

No campo da pesquisa científica, a IA está auxiliando cientistas a identificar estruturas moleculares com maior rapidez. Ao reduzir o ciclo de descoberta em 33%, a Merck ganha tempo precioso para levar terapias aos pacientes. A IA atua analisando estados de doenças e a viabilidade de fármacos, permitindo que as equipes foquem em alvos mais promissores com base em dados processados quase instantaneamente.

Simultaneamente, a área de marketing beneficia-se da automação na conformidade regulatória. Materiais promocionais, que variam drasticamente entre diferentes jurisdições, agora passam por um processo onde a IA gera rascunhos com 99% de precisão normativa. O papel humano evoluiu de revisor exaustivo para um "governador" do processo, eliminando os ciclos de retrabalho que anteriormente consumiam meses de aprovação interna.

Implicações para o ecossistema corporativo

A adoção de agentes de IA também impacta a modernização de aplicações legadas. A Merck utiliza agentes para documentar interações de dados, APIs e caminhos de rede, além de refatorar código automaticamente. O que antes exigia meses de trabalho humano e altos custos, agora é realizado via prompts, permitindo que a infraestrutura de TI acompanhe o ritmo da inovação científica sem colapsar sob a pressão técnica.

Para outras empresas, o paralelo é claro: a tecnologia de IA é o motor, mas a infraestrutura é o trilho. Reguladores e competidores observam como a automação de processos críticos pode alterar a dinâmica de mercado, especialmente em setores altamente regulados como o farmacêutico, onde a velocidade de conformidade é uma vantagem competitiva direta.

O futuro da orquestração de agentes

Embora os resultados iniciais sejam promissores, a complexidade de manter milhares de agentes funcionando de forma coesa permanece como um desafio central. A interoperabilidade entre agentes e a garantia de que as decisões tomadas por eles sejam auditáveis são pontos que exigirão atenção constante das lideranças de tecnologia.

A capacidade de escalar essa infraestrutura sem perder o controle sobre a segurança será o diferencial das empresas que conseguirão extrair valor real da IA agentiva. O mercado deve observar como a integração de novos protocolos de contexto e comunicação entre agentes moldará o próximo estágio da transformação digital corporativa.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · VentureBeat