Uma coalizão de 29 estados americanos está processando a Meta, com uma acusação central: a empresa teria projetado o Facebook e o Instagram para deliberadamente fomentar o vício entre crianças e adolescentes. A batalha legal, que pode durar semanas, está sendo chamada de o "momento tabaco" da gigante de tecnologia, uma analogia que define a gravidade e o potencial transformador do caso.
Mais do que uma multa, o que está em jogo é um precedente que pode redefinir a responsabilidade das plataformas sobre seus produtos. A tese da acusação não é apenas que as redes sociais são prejudiciais, mas que a Meta sabia dos riscos e, mesmo assim, otimizou seus algoritmos para maximizar o tempo de uso e, consequentemente, a receita publicitária.
A nicotina do scroll infinito
Se nos anos 70 a substância era a nicotina, hoje os mecanismos análogos, segundo os procuradores, são outros: o scroll infinito, a reprodução automática de vídeos, as notificações incessantes e os contadores de "likes". São funcionalidades desenhadas para eliminar barreiras naturais de uso, mantendo o usuário engajado. Segundo o site espanhol Xataka, a acusação se apoia em testemunhas como Arturo Béjar, ex-diretor de engenharia da Meta, que afirmou que a companhia priorizava crescimento em detrimento da proteção de menores.
O paralelo com a indústria do tabaco busca estabelecer que a empresa tinha conhecimento interno dos danos potenciais de seu produto, mas optou por ignorá-los em nome do lucro. A estratégia é transformar uma discussão sobre design de produto em uma questão de saúde pública com responsáveis claros.
Uma multa do tamanho da empresa?
As cifras ventiladas são astronômicas. A acusação fala em uma reparação que pode chegar a US$ 200 bilhões. Em uma interpretação extrema da lei, a própria Meta calcula que o valor poderia escalar para US$ 1,4 trilhão — o equivalente a sua capitalização de mercado, o que, na prática, a tiraria do mapa. A decisão final caberá à juíza federal Yvonne González Rogers.
O principal argumento de defesa da Meta é que, diferente do cigarro, a relação causal entre o uso de redes sociais e problemas de saúde mental é difusa e cientificamente complexa. A empresa sustenta que a acusação simplifica a ciência e não conseguiu provar que suas plataformas são a causa direta dos problemas alegados.
Independentemente do veredito, o processo em si já representa uma mudança de paradigma. A "tabaquização" das redes sociais ganha força no debate regulatório global, e a questão que permanece é se a pressão judicial conseguirá impor mudanças que anos de escândalos de privacidade e moderação de conteúdo não foram capazes de forçar.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





