A artista Mickalene Thomas, celebrada por suas obras que exploram a identidade e a representação de mulheres negras, enfrenta uma ação judicial movida pela fotógrafa Barbara Karant. O processo, registrado no Tribunal Distrital do Norte de Illinois, alega que Thomas utilizou de forma sistemática e não autorizada fotografias de Karant em instalações e pinturas exibidas em galerias e museus de renome internacional.

Segundo os autos, o litígio concentra-se na série "820 Ebony/Jet", composta por 250 imagens capturadas por Karant entre 2013 e 2015. As fotos documentam o interior da sede da Johnson Publishing Company, em Chicago, antiga proprietária das revistas Ebony e Jet. A fotógrafa afirma que Thomas incorporou essas imagens, por vezes editadas ou fragmentadas, em exposições como a itinerante "Mickalene Thomas: All About Love", sem conferir o devido crédito ou solicitar permissão para o uso do material protegido por direitos autorais.

O contexto da apropriação artística

As fotografias de Karant, que retratam espaços vazios e a atmosfera histórica da sede da Johnson Publishing, foram descritas pelo falecido curador Maurice Berger como um registro poético da memória de uma instituição vital para a cultura afro-americana. A apropriação, segundo a acusação, não se limitou a planos de fundo para instalações; Karant aponta que elementos específicos de suas fotos foram integrados em pinturas de Thomas, como na obra "Nus Exotiques #10", onde uma janela fotografada pela autora aparece reposicionada.

O uso de imagens de terceiros em colagens e instalações levanta questões complexas sobre os limites da transformação artística e o direito de propriedade intelectual. Em exposições anteriores, como a realizada na galeria Lévy Gorvy Dayan em 2021, o material de Karant foi utilizado de forma pixelada. A defesa da artista, no entanto, ainda não se manifestou publicamente sobre as alegações específicas de violação autoral.

Mecanismos e responsabilidade das galerias

O processo estende a responsabilidade legal a quatro galerias que representaram Thomas: Lévy Gorvy Dayan, Yancey Richardson, Kavi Gupta e Galerie Nathalie Obadia. A inclusão desses estabelecimentos como réus sublinha uma tendência crescente no mercado de arte: a pressão sobre galerias e instituições para garantir a procedência e a legalidade das obras exibidas, especialmente quando envolvem a apropriação de material fotográfico preexistente.

As galerias adotaram posturas distintas frente à notificação judicial. Enquanto a Lévy Gorvy Dayan declarou respeito aos direitos dos artistas e afirmou não poder comentar casos pendentes, outras não responderam ou declinaram de se pronunciar. A dinâmica coloca em xeque a curadoria de grandes exposições que utilizam colagens complexas, exigindo maior rigor na verificação de direitos autorais de todos os elementos visuais incorporados no processo criativo.

Implicações para o mercado de arte

Este embate jurídico coloca em evidência a tensão entre a liberdade criativa e a proteção da propriedade intelectual de fotógrafos cujas obras servem de base para produções de artistas visuais de maior projeção de mercado. Para o ecossistema das artes, o desfecho deste caso pode estabelecer um precedente importante sobre como museus e galerias devem gerir a atribuição em obras que dependem de referências fotográficas diretas.

Além do impacto na reputação, o processo ocorre em um momento em que Thomas enfrenta outros desafios legais, incluindo uma disputa com sua ex-parceira, Racquel Chevremont, sobre questões de gestão financeira e ambiente de trabalho. A convergência desses problemas judiciais traz um nível de escrutínio inédito sobre a carreira da artista, que recentemente integrou a lista "Time 100".

Perspectivas e incertezas

O que permanece incerto é como o tribunal interpretará a natureza "transformadora" das obras de Thomas em relação às fotografias originais de Karant. A definição de até que ponto uma colagem ou instalação altera a obra original a ponto de constituir um novo trabalho autoral será o núcleo da decisão judicial.

O mercado de arte aguarda, portanto, os próximos desdobramentos, observando se o caso resultará em acordos privados ou se definirá jurisprudência sobre os direitos de fotógrafos frente à apropriação em larga escala. A questão da transparência nas exposições e o papel das galerias como guardiãs da ética autoral seguirão sob observação constante de colecionadores e instituições.

O caso sublinha a fragilidade das relações de propriedade intelectual em um setor que valoriza a intertextualidade visual, mas que, sob a ótica jurídica, exige clareza sobre a origem e a autorização dos materiais que compõem o valor de mercado de uma obra contemporânea. Com reportagem de Brazil Valley

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