Um sistema cósmico na Via Láctea, a cerca de 12.000 anos-luz da Terra, está reescrevendo o que se sabia sobre a aceleração de partículas. Astrônomos identificaram o objeto IRAS 18293−0941 como o primeiro microblázar detectado em nossa galáxia. Essa descoberta, publicada em Astronomy & Astrophysics, oferece um laboratório cósmico sem precedentes para estudar como buracos negros geram jatos de matéria com energias extraordinárias, fenômeno antes observado apenas em galáxias distantes.

Um Laboratório Cósmico sem Precedentes

O microblázar é composto por um buraco negro de massa estelar, com aproximadamente dez vezes a massa do Sol, e uma estrela companheira que orbita a cada 11 dias. A intensa gravidade do buraco negro suga material da estrela, formando um disco de acreção antes de ser expelido em dois jatos opostos. Um desses jatos aponta diretamente para a Terra, caracterizando o sistema como microblázar. As observações de rádio revelaram que esse jato já modificou seu entorno em uma extensão de cerca de 100 anos-luz, uma escala impressionante para um sistema de massa estelar.

Aceleração Extrema de Partículas

O que torna IRAS 18293−0941 particularmente notável é sua capacidade de acelerar partículas. Ao impactar uma nuvem de material interestelar, um dos jatos gera condições que impulsionam partículas a energias cerca de 100 vezes superiores às alcançadas no Grande Colisor de Hádrons (LHC) do CERN. Essas partículas viajam a velocidades próximas à da luz, posicionando o sistema entre os aceleradores naturais mais potentes da Via Láctea. A proximidade relativa do microblázar permite aos cientistas estudar com um detalhe inédito os mecanismos físicos que operam em blazares clássicos, alimentados por buracos negros supermassivos em galáxias distantes.

O Poder da Observação Multibanda

O sistema IRAS 18293−0941 não é uma descoberta recente; sua existência é conhecida desde 1983. No entanto, a atual interpretação de sua natureza foi possibilitada pela combinação de observações em luz visível, raios X, raios gama e ondas de rádio. Essa abordagem multibanda permitiu aos pesquisadores reconstruir o funcionamento do buraco negro, a propagação de seus jatos e sua interação com o meio interestelar circundante. Como destacou Jakob van den Eijnden, coautor do estudo, "este descoberta evidencia o poder de estudar o universo com diferentes tipos de telescópios ao mesmo tempo".

Implicações e Perguntas em Aberto

Este microblázar serve como um análogo galáctico para o estudo de blazares remotos, cujas estruturas internas são difíceis de resolver devido à vasta distância. A capacidade de observar em detalhe os processos de canalização de energia e aceleração de partículas em IRAS 18293−0941 oferece insights valiosos sobre a física fundamental desses fenômenos cósmicos extremos. A pesquisa abre novas avenidas para entender a origem de raios cósmicos de alta energia e o papel dos buracos negros na evolução das galáxias.

A observação detalhada deste sistema próximo pode ajudar a desvendar os segredos por trás da formação e propagação dos jatos relativísticos, bem como a natureza das partículas aceleradas a energias tão extremas. A colaboração científica, que envolveu múltiplos observatórios e instrumentos, reforça a importância de abordagens integradas na astronomia moderna.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · El Confidencial — Tech