Em 1969, enquanto equilibrava as exigências da maternidade com o desejo contínuo de produzir arte, Mierle Laderman Ukeles redigiu o Manifesto for Maintenance Art 1969! (Proposal for an Exhibition “CARE”). O texto não buscava apenas legitimar o trabalho doméstico, mas elevar a manutenção do cotidiano — frequentemente invisível, não remunerada e historicamente relegada às mulheres — à categoria de prática artística. Décadas mais tarde, essa visão é o fio condutor do documentário "Maintenance Artist" (2025), dirigido por Toby Perl Freilich, que oferece ao público um mergulho na trajetória de uma das figuras mais singulares da arte contemporânea. O filme não apenas revisita a carreira de Ukeles, mas convida o espectador a reconsiderar quem, afinal, sustenta a infraestrutura da nossa sociedade.

Durante anos, Ukeles operou nas margens, longe do reconhecimento que figuras contemporâneas masculinas alcançavam sem o peso das expectativas domésticas. A narrativa do documentário é oportuna, surgindo em um momento em que o mundo da arte revisita suas próprias lacunas históricas. Ao explorar como Ukeles integrou o Departamento de Saneamento de Nova York em sua prática, o filme demonstra que a arte pode, sim, ser feita através da recontextualização do familiar — uma inflexão que ela mesma relaciona à influência de Marcel Duchamp, com a ressalva de que seus pares homens raramente precisavam lidar com a realidade prática do cuidado.

A gênese de uma artista da manutenção

A influência de Duchamp sobre Ukeles é um ponto de partida recorrente, mas a artista rapidamente subverte essa linhagem ao apontar as falhas estruturais de seus contemporâneos. Enquanto o Minimalismo e a Pop Art buscavam a pureza estética, Ukeles observava que esses movimentos eram, na verdade, "infectados" por camadas de manutenção que se recusavam a reconhecer. Ela cita, por exemplo, as esculturas monumentais de Richard Serra, que dependiam diretamente do trabalho pesado de siderúrgicos e construtores navais, embora o discurso artístico da época insistisse na figura do artista como um criador único e isolado.

Essa tensão entre o trabalho braçal e a aura do artista é o que Ukeles buscou desmantelar. Ao se autodenominar uma "maintenance artist", ela não estava apenas adotando um rótulo provocativo; exigia que a sociedade enxergasse o esforço humano por trás das coisas que simplesmente "funcionam". Para Ukeles, a manutenção não é a antítese da arte, mas uma forma de arte que exige uma atenção constante e, muitas vezes, exaustiva. O documentário captura essa essência ao mostrar que, para ela, ser artista era inseparável de ser alguém que cuida, limpa e preserva o ambiente ao redor.

A logística como performance pública

O documentário de Perl Freilich ganha força ao traduzir a natureza efêmera da performance para a linguagem cinematográfica, um desafio comum a artistas que atuam fora dos meios tradicionais. Ao explicar a logística por trás de cada obra, o filme desmistifica o processo criativo de Ukeles. Um exemplo claro é o trabalho "I Make Maintenance Art One Hour Every Day" (1976), um mosaico composto por cerca de 700 fotos Polaroid de funcionários de limpeza em um arranha-céu no distrito financeiro de Nova York. A escolha do meio não foi apenas estética; Ukeles utilizou as Polaroids para garantir aos trabalhadores que ela não era uma espiã da administração ou do sindicato.

Essa metodologia de trabalho gerou uma camaradagem genuína, visível tanto nas imagens de arquivo quanto nas filmagens contemporâneas, onde Ukeles interage com funcionários municipais com uma cordialidade que transcende a hierarquia. Ao contrário de documentários que glorificam o indivíduo como um gênio isolado, "Maintenance Artist" posiciona Ukeles como um ator dentro de uma comunidade maior. Essa abordagem revela a importância da empatia na prática artística, onde o sucesso de uma obra depende da confiança mútua entre o artista e aqueles cujo trabalho ela pretende dignificar.

Tensões e invisibilidades persistentes

Embora o documentário ofereça um retrato detalhado da atuação de Ukeles em Nova York, ele deixa de fora outras facetas de uma vida extensa de criação e colaboração — limitações comuns ao formato. Ainda assim, a complexidade de uma prática dedicada à arte e ao ativismo social emerge com clareza, com ênfase na pergunta central: como o trabalho de manutenção é valorizado — ou ignorado — em diferentes contextos?

As implicações da obra de Ukeles estendem-se para além do museu, atingindo a forma como reguladores, gestores públicos e a própria sociedade civil percebem o trabalho de cuidado. Em um mundo cada vez mais automatizado, a lição de Ukeles sobre a dignidade do trabalho humano torna-se ainda mais urgente. O documentário nos força a perguntar: quanto da nossa infraestrutura social depende de um trabalho que escolhemos não ver? E se começássemos a tratar a manutenção de nossas cidades e de nossas vidas com o mesmo respeito que dedicamos a uma obra exposta em uma galeria?

O que resta quando a performance termina

A trajetória de Mierle Laderman Ukeles levanta questões que permanecem em aberto, especialmente em um cenário artístico que ainda luta para equilibrar o reconhecimento do indivíduo com a necessidade de valorizar o trabalho coletivo. O que acontece quando a "arte da manutenção" deixa de ser um gesto performático e se torna uma exigência de sobrevivência em um mundo em constante degradação?

O documentário não oferece respostas fáceis, preferindo que o espectador saia da sala de cinema observando, com um novo olhar, a pessoa que limpa o corredor, o zelador do prédio ou o profissional que garante que o lixo seja recolhido. A pergunta que persiste, após os créditos subirem, não é sobre o valor de mercado da obra de Ukeles, mas sobre o valor intrínseco de tudo aquilo que, por ser essencial, decidimos ignorar.

Com reportagem de Hyperallergic

Source · Hyperallergic