A transição para o SAP S/4HANA tornou-se uma das pautas mais urgentes nas agendas de tecnologia das grandes corporações brasileiras. Contudo, o que deveria ser um motor de modernização tem se transformado, em muitos casos, em uma simples troca de infraestrutura que preserva falhas operacionais estruturais. Segundo dados da pesquisa “ISG SAP Migration Study 2025”, o mercado ainda oscila entre diferentes modelos de implementação, com a maioria das organizações dependendo fortemente de serviços externos para planejamento e execução. A complexidade do cenário reflete um desafio que vai muito além da escolha entre nuvem ou servidores locais.

A verdadeira armadilha reside na crença de que a tecnologia, por si só, é capaz de resolver gargalos que são, na verdade, de gestão. Ao migrar sistemas legados com duas décadas de existência para uma plataforma moderna sem antes depurar processos, cadastros e fluxos de aprovação, as empresas acabam apenas automatizando ineficiências. O resultado é um ambiente onde a inteligência artificial, quando aplicada, serve apenas para acelerar erros e retrabalho, em vez de gerar o valor prometido pela transformação digital.

A falácia da modernização tecnológica

A discussão sobre ERPs tem sido excessivamente simplificada pelo mercado. Termos como RISE, greenfield e cloud ocupam o centro das conversas, enquanto a pergunta fundamental — quais processos a organização está disposta a redesenhar — é frequentemente deixada de lado. A migração para o S/4HANA exige uma mudança de paradigma que muitos conselhos de administração ainda não estão prontos para abraçar.

Historicamente, o ERP reflete a maturidade da própria organização. Quando os processos são fragmentados e a governança de dados é precária, a nova plataforma apenas encapsula essa desordem em uma interface mais ágil. O investimento médio de 1,62% da receita anual nesses projetos, conforme o estudo da ISG, evidencia o tamanho do risco financeiro quando o planejamento falha em endereçar a complexidade operacional desde o primeiro dia.

O custo do erro e a gestão de mudanças

Os estouros de orçamento e os atrasos em cronogramas de implantação não são, via de regra, falhas de software, mas falhas de preparação. A integração com sistemas legados e a baixa qualidade dos dados são os vilões recorrentes que drenam recursos e tempo. Quando a gestão da mudança é tratada como um item secundário, a empresa perde a oportunidade de simplificar fluxos e aumentar a transparência.

O papel dos integradores e consultorias também precisa ser reavaliado. Mais do que suporte técnico, as empresas necessitam de parceiros capazes de antecipar riscos e traduzir as necessidades específicas de cada setor em valor mensurável. A capacidade de orientar decisões de negócio durante o projeto é o que separa uma migração bem-sucedida de um desperdício de capital.

Implicações para o ecossistema corporativo

Para reguladores e investidores, a migração para o S/4HANA é um indicador de saúde operacional. Empresas que utilizam a transição para limpar o legado e otimizar processos estão, na prática, preparando-se para uma escala mais eficiente. Por outro lado, a manutenção de silos e controles paralelos dentro da nova plataforma cria uma falsa sensação de segurança tecnológica que pode custar caro em momentos de crise ou necessidade de resposta rápida ao mercado.

O cenário brasileiro é particularmente sensível, dada a longevidade média dos sistemas em uso. Com ERPs operando há cerca de 20 anos, a defasagem entre o que o sistema entrega e o que o negócio exige é profunda. A migração não é o fim, mas um meio que exige disciplina de gestão, algo que nenhum software consegue suprir sozinho.

O horizonte da transformação real

O que permanece incerto é a capacidade das lideranças em separar o desejo de modernização tecnológica da necessidade de revisão estratégica. A pergunta que define o sucesso a longo prazo não é sobre a data de entrada em produção, mas sobre quanto a empresa será capaz de reduzir sua complexidade interna após o go-live.

O monitoramento do ROI será o teste definitivo para essas implementações. Observar se a nova base permitirá, de fato, a adoção de IA e automação inteligente sem os vícios do passado será a tarefa dos próximos anos para CIOs e CFOs.

A tecnologia, por mais avançada que seja, permanece como um espelho da organização que a utiliza. Se o mapa estiver errado, não há motor que leve a empresa ao destino correto. Com reportagem de Brazil Valley

Source · TIInside