Guerreiros cobertos por um óleo escuro, com a pele transformada em obsidiana, movem-se em um balé marcial. As espadas de aço, de gumes cegos, se cruzam em um ritual coreografado, enquanto uma água rubra sobe lentamente pelas pernas dos combatentes. Os olhos, com lentes de contato escuras, removem a individualidade e os transformam em avatares de uma raça alienígena ou deuses esquecidos.

A cena pertence a “TЯUTH”, uma instalação de vídeo do artista Miles Greenberg, resultado de uma performance de sete horas. A obra, junto com a instalação “LE MIROIR”, compõe uma tese visual poderosa: a de que mitos universais podem e devem ser reescritos, e que corpos negros são os protagonistas dessa nova mitologia.

A reescrita do corpo

O trabalho de Greenberg ecoa a reflexão de Nietzsche sobre a natureza humana original: selvagem, incalculável, caótica. A performance não busca a violência real, mas sim a representação de um estado primevo, anterior às convenções sociais. Ao cobrir os performers com um pigmento negro, o artista os despersonaliza para, paradoxalmente, lhes conferir uma universalidade arquetípica. Eles não são indivíduos, mas o Guerreiro, o Outro, a Força. A pele se torna um uniforme mítico, um veículo para contar histórias que pertencem a todos, mas que raramente foram protagonizadas por eles.

Do combate ao amor

Se em “TЯUTH” a narrativa é de conflito e poder, em “LE MIROIR” o foco se desloca para o afeto e a intimidade. Filmada em Marrakesh e no deserto dos Emirados, a obra é descrita como uma “história de amor queer surreal, inspirada no mito de Orfeu e Eurídice”. Performers com olhos inteiramente brancos, como oráculos, interagem com serpentes e cegonhas sobre plintos espelhados que refletem a paisagem. A fisicalidade do combate dá lugar à fisicalidade do cuidado: dois homens caminham de mãos dadas, rolam juntos por uma duna, carregam um ao outro.

Ambas as obras usam o corpo como um texto a ser lido. Greenberg não está apenas criando imagens esteticamente impactantes; ele está engajado em um ato de tradução cultural, transportando a linguagem dos mitos gregos e das reflexões filosóficas europeias para uma gramática visual centrada na experiência negra. O resultado é um futuro ancestral, onde as histórias mais antigas do mundo são contadas de uma forma radicalmente nova.

Com reportagem de Brazil Valley

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