Marcelo Mindlin, o fundador da Pampa Energía, grupo energético argentino, está em um novo e audacioso capítulo de sua carreira empresarial. Conhecido por sua capacidade de realizar movimentos estratégicos em um ambiente econômico volátil como o da Argentina, Mindlin agora lidera um grupo de investidores que assumiu o controle da InterCement, uma das maiores produtoras de cimento do Brasil e proprietária da Loma Negra, líder de mercado na Argentina. Essa movimentação estratégica ocorre em paralelo ao anúncio de um projeto de US$ 2,7 bilhões da Pampa Energía para ingressar na produção de ureia, expandindo o escopo da empresa para o setor de fertilizantes.

Em entrevista ao Brazil Journal, Mindlin compartilhou insights sobre suas operações, estratégias de expansão e visões sobre a economia argentina. Ele prefere focar em decisões de investimento e não em análises políticas, ressaltando que a trajetória da Pampa, que completou 20 anos, atravessou diversos governos sem que isso impedisse o crescimento. Sua filosofia é clara: "Quando vejo um bom negócio, sustentável, nós investimos e seguimos adiante." Essa abordagem permitiu a aquisição da Edenor em 2005, em meio a uma crise no setor elétrico, e a compra dos ativos da Petrobras na Argentina em 2016, transações que triplicaram o tamanho da Pampa e foram viabilizadas por uma gestão financeira conservadora, com baixo endividamento e alta liquidez.

A Lógica de Investimento em Mercados Voláteis

A estratégia de Mindlin é marcada por uma combinação de agressividade na captura de oportunidades e conservadorismo financeiro. Ao fundar a Pampa Energía em 2005, após deixar o grupo imobiliário IRSA, ele aproveitou um momento de pânico no mercado de energia argentino, comprando títulos de dívida da Edenor com grande deságio. A compra de ativos de empresas estrangeiras que deixavam o país tornou-se uma tática recorrente, baseada na crença de que "alguns ativos são estratégicos" independentemente do cenário político. Essa visão foi reforçada na aquisição dos negócios da Petrobras Argentina em 2016, um movimento complexo que exigiu uma análise profunda e uma estrutura financeira robusta. A Pampa demonstrou, mais uma vez, sua capacidade de executar transações de grande porte, mantendo um nível de dívida baixo (1,4x EBITDA no final do primeiro trimestre) e uma posição de caixa forte.

Vaca Muerta e a Nova Argentina: Energia e Mineração

Um dos pilares da expansão da Pampa Energia tem sido a exploração de Vaca Muerta, uma das maiores formações de shale gas e tight oil do mundo. A aquisição dos ativos da Petrobras incluiu áreas cruciais para o desenvolvimento da região, que hoje se posiciona como um motor de crescimento para a Argentina. Mindlin compara o país a um avião que antes dependia apenas do agronegócio para gerar dólares, mas que agora conta com a energia de Vaca Muerta como uma segunda turbina. A expectativa é que, até 2030, a produção de petróleo e gás gere tantos dólares quanto o setor agropecuário. Ele também vislumbra a mineração como uma terceira turbina de crescimento futuro. A Pampa, por exemplo, prevê investir US$ 4,6 bilhões até 2041 em projetos de shale em Rincón de Aranda e infraestrutura associada.

Expansão para Cimento e Fertilizantes: Novos Horizontes

A entrada no setor de cimento, com a aquisição da InterCement, foi precedida por um estudo aprofundado da Loma Negra, subsidiária argentina da InterCement. Mindlin viu uma oportunidade única de adquirir uma empresa centenária com 45% de participação de mercado na Argentina e, simultaneamente, uma fatia de 13% no expressivo mercado brasileiro. Com as fábricas da InterCement operando em plena capacidade e a Loma Negra em 60%, a expectativa é que projetos de infraestrutura e a recuperação dos mercados imobiliário e de crédito impulsionem a demanda por cimento. Paralelamente, a Pampa Energía investirá US$ 2,7 bilhões na produção de ureia, aproveitando o vasto potencial de gás natural de Vaca Muerta. A América Latina, grande importadora de ureia, apresenta um déficit regional de 11 milhões de toneladas, e a produção argentina, com custo de gás competitivo (US$ 3 por milhão de BTU), se posiciona de forma estratégica para suprir essa demanda. Mindlin também aponta o potencial do Brasil como comprador de GNL argentino no futuro, quando a Argentina desenvolver sua capacidade de liquefação.

O futuro da Pampa Energía parece cada vez mais ancorado em Vaca Muerta e na produção de ureia. Mindlin projeta que, em três a três anos e meio, a fábrica de ureia gerará um EBITDA comparável ao de toda a geração de energia elétrica e exploração e produção de petróleo e gás da companhia, adicionando uma nova e poderosa turbina à sua operação. A diversificação de Mindlin, que vai do "shale" ao cimento e fertilizantes, reflete uma estratégia consistente de capitalizar oportunidades em setores essenciais da economia latino-americana, mesmo em cenários de incerteza.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Brasil Journal Tech