O mercado de minério de ferro vive um momento de tensão. Pela quarta sessão consecutiva, os preços da principal matéria-prima do aço registraram alta, impulsionados por sinais de restrição na oferta. Na bolsa de Dalian, na China, o contrato mais negociado fechou com avanço de 1,36%, a US$ 110,94 por tonelada, o maior patamar desde o final de julho. Em Cingapura, a referência para o mercado global também operou em alta, tocando US$ 101,1 por tonelada.

A alta recente reflete uma preocupação genuína do lado da oferta. Contudo, o movimento encontra um contrapeso significativo na demanda chinesa, cujos sinais permanecem ambíguos. A leitura do mercado é que se desenha um cabo de guerra entre a percepção de escassez de curto prazo e um quadro estrutural de estoques elevados e rentabilidade pressionada no setor siderúrgico, o principal consumidor da commodity.

O aperto na oferta

Dois fatores principais alimentam o otimismo dos preços. O primeiro é a queda nos embarques dos principais fornecedores globais. Segundo dados da consultoria Mysteel, os despachos da Austrália e do Brasil para a China caíram 7,7% na semana, para 23 milhões de toneladas. Para um mercado que opera com base em fluxos contínuos, qualquer disrupção logística tem impacto imediato na formação de preços.

O segundo fator é o risco de paralisação. As negociações entre a gigante da mineração BHP e os sindicatos em Port Hedland, um dos principais complexos portuários de escoamento de minério na Austrália, terminaram sem acordo. A mera possibilidade de uma greve em um hub dessa magnitude mantém os operadores em alerta, precificando uma potencial interrupção no fornecimento que poderia apertar ainda mais o balanço de oferta e demanda.

O freio da demanda chinesa

Do outro lado da balança, a China atua como um freio. Embora haja uma expectativa sazonal de que as siderúrgicas reponham estoques antes do feriado nacional de uma semana em outubro, os fundamentos de longo prazo são menos animadores. Os estoques de minério de ferro nos portos chineses permanecem em níveis elevados, totalizando mais de 152 milhões de toneladas, de acordo com a consultoria Steelhome. Esse volume funciona como um colchão de liquidez, capaz de absorver choques de oferta de curto prazo.

Adicionalmente, as margens de lucro das siderúrgicas chinesas continuam reduzidas. Com a demanda por aço no país ainda incerta, especialmente no setor de construção civil, as usinas têm pouco incentivo para aumentar a produção de forma agressiva e, consequentemente, para pagar mais caro pela matéria-prima. Essa disciplina de custos limita o apetite por minério a preços mais altos, mesmo diante de uma oferta mais restrita.

O cenário para o minério de ferro, vital para a balança comercial brasileira, permanece indefinido. A direção dos preços nas próximas semanas dependerá de qual força prevalecerá: se os problemas de oferta se materializarão de forma concreta ou se os vastos estoques e a cautela da indústria chinesa conseguirão manter o mercado sob controle.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney