A ascensão das Kardashians ao topo da cultura pop global não foi um acidente, mas um exercício magistral de adaptação tecnológica e exploração do comportamento humano. Em seu novo livro, "DeKonstructing the Kardashians", a psicóloga e pesquisadora MJ Corey propõe uma análise rigorosa que vai além do entretenimento televisivo, tratando a família como um fenômeno central do capitalismo de vigilância e da era do Instagram. Segundo reportagem da i-D, o trabalho de Corey busca entender como a família passou de figuras de reality show para um mandato cultural absoluto.
Corey, que ganhou notoriedade com o perfil @Kardashian_kolloqium, utiliza ferramentas de teoria da mídia e análise de dados para mapear como as Kardashians não apenas acompanharam a evolução das plataformas digitais, mas as definiram. A tese central é que a família funciona como um espelho das tensões contemporâneas entre o desejo público, a exposição da vida privada e a monetização da imagem pessoal, transformando a audiência em um ciclo contínuo de engajamento.
A lente da teoria pós-moderna
O interesse de Corey pelo tema surgiu de uma percepção clínica sobre a natureza "hiper-curada" do reality show. Ao observar momentos de vulnerabilidade real em meio à artificialidade construída, a pesquisadora identificou um fenômeno de "vale da estranheza" que a levou a recorrer à filosofia francesa e à teoria da mídia. Para ela, a família atua como uma figura de catarse cultural, permitindo ao público descarregar sentimentos como inveja, desejo e desprezo em um ambiente controlado.
Historicamente, a trajetória das Kardashians reflete a transição das mídias tradicionais para a era da economia da atenção. Corey argumenta que, ao adotar sem pudor a estética das selfies e a exposição constante, elas estabeleceram o padrão de comportamento que hoje domina o Instagram. Esse movimento não foi apenas intuitivo; ele seguiu uma lógica de exploração de dados que, segundo a autora, antecipou o funcionamento das plataformas de rede social como locais de coleta de informações sobre os usuários.
O mecanismo da auto-comoditização
Um dos pontos mais reveladores da pesquisa de Corey envolve a análise da marca Skims. Ao investigar o modelo de negócios da empresa, o grupo de estudos formado pela autora, a "Kardashian Data Koalition", descobriu que o sucesso comercial da marca reside em um ciclo repetitivo de campanhas com diferentes referências culturais, enquanto os produtos em si permanecem inalterados. A marca, portanto, funciona como um veículo para a imagem de Kim Kardashian.
Essa estratégia de branding ilustra a fusão total entre a pessoa e o produto. Ao se comparar a ícones corporativos como Nike ou Apple, Kim Kardashian sinaliza que seu corpo e sua imagem são ativos industriais. A análise de Corey sugere que a busca por Kim e a busca por seus produtos convergiram, tornando a celebridade um proxy para o consumo. Esse nível de auto-comoditização é, segundo a autora, o que torna a família singular no cenário da economia da influência.
Tensões e o estigma da análise pop
A recepção acadêmica e jornalística do trabalho de Corey revela uma resistência curiosa, que a autora denomina "estigma Kardashian". Apesar da relevância do tema para entender as mudanças na comunicação contemporânea, a pesquisadora enfrentou dificuldades iniciais para legitimar seu trabalho em veículos tradicionais. Esse fenômeno espelha a própria trajetória de Kim Kardashian, que só foi amplamente reconhecida como força econômica após ser chancelada por publicações como a Vogue.
O impacto desse trabalho levanta questões sobre como a crítica cultural lida com fenômenos que nascem na cultura popular de massa. Para Corey, o desafio de analisar as Kardashians é, em última análise, um desafio de compreender a própria estrutura das plataformas em que vivemos. A resistência em levar a sério esses objetos de estudo pode ser, na verdade, um reflexo da dificuldade em admitir a influência profunda que a lógica do reality show exerce sobre a esfera pública.
O futuro da vigilância cultural
O que permanece incerto é se esse modelo de sucesso será sustentável a longo prazo ou se a saturação da imagem das Kardashians levará a um esgotamento do interesse público. Corey aponta que a vigilância é uma via de mão dupla: se o público monitora a família, a família monitora o engajamento do público com uma precisão algorítmica. Essa relação simbiótica sugere que, enquanto houver demanda por catarse, o modelo Kardashian continuará a evoluir.
Observar a evolução da família nos próximos anos pode oferecer pistas valiosas sobre o futuro do marketing de influência e da própria natureza da fama digital. O trabalho de Corey convida a uma reflexão sobre até que ponto somos espectadores conscientes ou meros participantes de uma simulação desenhada para maximizar o consumo. A resposta, ao que parece, reside na intersecção entre a nossa curiosidade humana e a arquitetura das plataformas.
A desconstrução proposta por MJ Corey sugere que, mais do que simples celebridades, as Kardashians são o sistema operacional da cultura digital contemporânea. Entender como elas operam é, essencialmente, entender as engrenagens que movem a atenção e o capital no século XXI.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · i-D





