MJ Lenderman, músico conhecido por álbuns como "Boat Songs" e "Manning Fireworks", encontra em Harry Crews um espelho para sua própria jornada artística. A descoberta de Crews, autor de "A Feast of Snakes" e "The Knockout Artist", não foi imediata, mas sim um processo gradual, iniciado por amigos e alimentado pela leitura durante um período de intensa criação musical. "Aquele cara era fodido", contava um amigo sobre Crews, um sentimento que se tornou um portal para um universo literário que falava diretamente com a experiência de Lenderman.
Crews, nascido em uma família de agricultores arrendatários na Geórgia, construiu sua carreira literária com poucas vantagens, mas com uma resiliência notável. Lenderman se identifica com essa necessidade de "suportar o fracasso" que Crews pregava em suas entrevistas, um conselho que se tornou um guia para sua própria escrita. "Qualquer busca artística envolve sua capacidade de suportar o fracasso", dizia Crews, uma lição que ressoou profundamente com Lenderman durante a escrita de "Boat Songs", um álbum que ele sabia que poderia parecer "estúpido no papel", mas que sentia ser autêntico. A escrita, para Crews, era um ato de coragem, e cantar suas próprias canções, para Lenderman, ecoava esse mesmo espírito.
A linguagem de Crews é marcada por uma especificidade que mescla o sério e o cômico, o chocante e o ternurento. Frases como "hustling his balls" (um termo que Lenderman sugere que poderia ser desmembrado em um ensaio inteiro) tornaram-se um objetivo para o músico em sua busca por expressões autênticas. A influência é tão clara que uma linha icônica de "Joker Lips", de Lenderman, "Todo católico sabe que poderia ter sido Papa", é, na verdade, uma citação direta de "Gospel Singer" de Crews. Essa admiração se estende à reflexão sobre o dom e a sorte, ou a falta dela, como expresso em "Gospel Singer": "Todo homem sabe que seu dom o libertará se ele for sortudo o suficiente. Ou azarado o suficiente, dependendo do seu ponto de vista."
Em "Body", um dos romances de Crews que Lenderman analisa, a narrativa se desenrola em torno de um halterofilismo competitivo, mas vai além da superfície. A história explora a rivalidade entre treinadores e a complexa relação de controle e dependência entre eles e as atletas. Apesar da natureza exagerada e quase caricatural dos personagens e situações, Crews consegue humanizar seus protagonistas, encontrando "a suavidade entre esses corpos duros". Personagens como "Nail Head" e "Billy Bat" demonstram a capacidade de Crews de encontrar ternura e humanidade em cenários absurdos, culminando em um final sutil e revelador que, segundo Lenderman, ensina sobre a inevitabilidade e a complexidade das ações humanas.
Crews não se esquiva de retratar o lado sombrio da existência, e "Body" não é exceção. O romance transborda de epítetos racistas e descrições de sexo degradante, refletindo uma realidade brutal. No entanto, para Lenderman, essa crueza é parte do que torna Crews um "destacador literário", usando cores garish para expor a realidade das pessoas. O impacto final de "Body", para Lenderman, reside na apreciação de que, independentemente de quão estranhas suas ações possam parecer, a maioria das pessoas está apenas tentando fazer o melhor que pode. A obra de Crews, com sua visceralidade e autenticidade, continua a ser um farol para artistas como Lenderman, mostrando que a coragem de colocar a verdade na página, por mais difícil que seja, é o que realmente importa.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Paris Review Blog





