Em uma Marseille castigada por uma onda de calor histórica, Elias Medini, conhecido como Lyas para seus meio milhão de seguidores, organizava um evento incomum: a transmissão de desfiles de moda como se fossem jogos de futebol. A iniciativa, batizada de La Watch Party, nasceu da frustração de Lyas, um ex-outsider da moda que, após ser demitido de uma revista por uma crítica contundente à Dior, decidiu criar seu próprio espaço para os apaixonados que, como ele, não tinham acesso aos eventos exclusivos. A ideia era simples: reunir pessoas em bares para assistir às apresentações de grifes renomadas, promovendo um senso de comunidade e pertencimento.

O que começou como uma solução improvisada em um café parisiense, com cerca de 300 pessoas comparecendo para assistir a um desfile da Dior, evoluiu para um fenômeno. Lyas passou a organizar eventos em diversas cidades, atraindo dezenas de milhares de pessoas e o patrocínio de marcas como Vetements. A fórmula de Lyas, que transforma a moda em um evento social e acessível, ressoa com um público que busca conexão e experiência, algo que as tradicionais semanas de moda, com seus convites restritos, deixavam a desejar. A transformação da moda em entretenimento, onde o espetáculo e a participação ganham mais relevância que o consumo direto, é um reflexo de como outras indústrias, como a esportiva, já operam há décadas.

A ascensão do fã de moda

A narrativa de Lyas é emblemática de uma nova geração de fãs de moda. Crescendo em Rouen, longe dos holofotes parisienses, ele buscou na moda um refúgio e um senso de identidade. Sua incursão ousada em um desfile da Vetements aos 16 anos, movida por uma mistura de admiração e autoconfiança juvenil, prenunciava sua futura carreira. Após a pandemia, Lyas capitalizou sua presença online, especialmente no TikTok, para se tornar um comentarista e crítico de moda, acumulando convites para eventos. No entanto, um deslize editorial o afastou do circuito oficial, impulsionando-o a criar seu próprio caminho e, ironicamente, a ser mais valorizado por aqueles que antes o excluíam.

As Watch Parties de Lyas se tornaram um ponto de encontro para um público diverso: estudantes de moda, aspirantes a profissionais, curiosos e até mesmo aqueles que trabalham na indústria, mas não conseguiram acesso aos desfiles. A atmosfera é de celebração e expressão livre, como atesta Milana, uma jovem que viajou de Londres para Paris usando uma camiseta customizada com o rosto de Lyas. Para ela, esses eventos são um espaço para "expressar-se plenamente e deixar a criatividade fluir", fortalecendo laços com outros criativos. A dinâmica se assemelha à de eventos esportivos, onde a paixão compartilhada transcende o conhecimento técnico, bastando uma tela e a vontade de vibrar em conjunto.

O espetáculo além do consumo

A moda, cada vez mais, opera em um plano de entretenimento, onde o valor reside na atenção gerada e na experiência compartilhada, e não necessariamente na aquisição de produtos. Lyas observa que, em suas transmissões, o público não se limita a assistir passivamente; há discussões, críticas e até votações para eleger os melhores desfiles. Essa interatividade transforma a experiência, aproximando o público da indústria de uma forma mais dinâmica e democrática. Em Marselha, por exemplo, a transmissão de um desfile da Louis Vuitton no meio de um evento festivo evidenciou como a moda pode se fundir com outros aspectos culturais, gerando momentos de alegria e celebração coletiva, mesmo entre pessoas que nunca haviam ouvido falar da marca.

Essa transição para o entretenimento levanta questões sobre a natureza do fã de moda. São eles aspirantes a profissionais em busca de networking, jovens em busca de visibilidade social, ou simplesmente indivíduos fascinados pelo espetáculo? A resposta parece abranger todas essas possibilidades. O sucesso de Lyas reside em criar um espaço onde a paixão pela moda, independentemente do background, é celebrada. A diversidade de participantes, desde pais com filhos até entusiastas de longa data, demonstra que o apelo da moda como entretenimento é amplo e multifacetado, ecoando o poder unificador do esporte.

Comunidades online e a perda da aura

Paralelamente à ascensão dos eventos presenciais, comunidades online como a "High Fashion Twitter" (HF Twitter) moldaram a forma como muitos jovens se relacionavam com a moda. O grupo formado por Chloe Kennedy, Margaux Merz e Senam Attipoe, entre outros, utilizava a plataforma para discussões críticas e análises aprofundadas, distanciando-se da superficialidade percebida em outras redes. No entanto, a evolução dessas plataformas, marcada pela comercialização e mudanças na propriedade, levou muitos desses fãs a se afastarem, buscando refúgios em newsletters no Substack ou em grupos de mensagens privadas.

Hiral Arora, uma consultora de startups que comenta moda online sob o pseudônimo @chaoswintour, expressa a dificuldade de encontrar em plataformas como o Substack a profundidade analítica que busca. Ela descreve o Substack como "Pinterest com palavras", focado mais em estética e estilo de vida do que em críticas substanciais. A experiência online, embora tenha trazido visibilidade e conexão, também gerou um certo distanciamento. Kennedy, Merz e Attipoe, que outrora foram porta-vozes do "fandom" online, agora preferem conversas privadas, sentindo que a "aura" da discussão se perde no ambiente virtual e que a autenticidade é mais facilmente mantida longe dos holofotes da indústria.

O futuro da paixão pela moda

O que permanece incerto é se a moda, ao se consolidar como entretenimento, conseguirá manter a profundidade crítica que a caracterizou em seus primórdios. A ascensão de eventos como as Watch Parties de Lyas sugere um futuro onde o acesso e a participação são democratizados, mas a questão de quem realmente consome e quem apenas observa o espetáculo persiste. A linha entre fã e consumidor, entre apreciador e influenciador, torna-se cada vez mais tênue, desafiando as definições tradicionais de engajamento na indústria da moda.

A moda, assim como o esporte, oferece um palco para a expressão, a conexão e, por vezes, uma fuga da realidade. Seja em eventos vibrantes ou em discussões virtuais acaloradas, a paixão pelo universo fashion continua a florescer, adaptando-se a novas plataformas e formatos. O desafio agora é equilibrar o brilho do espetáculo com a substância da crítica, garantindo que a legião de fãs encontre não apenas entretenimento, mas também significado e reflexão.

Com reportagem de Brazil Valley

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