A Moeve e a Exolum, por meio da joint venture Terminal Puerto Tartessos, garantiram um financiamento de 105 milhões de euros junto ao BBVA e ao Kutxabank. O montante será destinado exclusivamente ao desenvolvimento do projeto Muelle Sur, uma infraestrutura logística situada no Puerto de Huelva, na Espanha. A operação foi estruturada no modelo de project finance, garantindo capital de longo prazo para uma das obras mais relevantes do setor energético europeu atual.

O BBVA atuou como principal articulador da transação, assumindo os papéis de bookrunner e coordenador do hedge, enquanto o Kutxabank participou como lead arranger. A assessoria jurídica do projeto ficou a cargo dos escritórios Garrigues, representando a joint venture, e Gómez-Acebo & Pombo, assessorando as instituições financeiras. O fechamento deste acordo sinaliza a confiança do mercado bancário em ativos de infraestrutura ligados à transição energética.

O papel estratégico do Muelle Sur

O projeto Muelle Sur não é apenas uma obra de engenharia portuária, mas o elo logístico que viabilizará a operação da nova planta de biocombustíveis de segunda geração (2G) da Moeve. Com mais da metade da construção já executada, a infraestrutura servirá como o ponto principal de entrada de matérias-primas e escoamento da produção. O complexo de Huelva está posicionado para ser um dos maiores polos de biocombustíveis do sul da Europa.

A infraestrutura contará com um novo cais de atracação de 511 metros, projetado para modernizar as capacidades do Parque Energético La Rábida. A modernização é vista como um passo essencial para aumentar a autonomia energética europeia, reduzindo gargalos logísticos e permitindo a gestão eficiente de fluxos de insumos sustentáveis em grande escala.

A lógica financeira por trás da operação

O uso do modelo de project finance é central para entender o incentivo das partes. Ao estruturar a dívida sobre o próprio ativo, as empresas otimizam sua estrutura de capital sem impactar excessivamente os balanços corporativos. Para os bancos, o projeto oferece garantias sólidas baseadas na demanda futura por biocombustíveis, um mercado com forte apoio regulatório e institucional na União Europeia.

Para a Moeve, o financiamento garante a viabilidade operacional necessária para seus projetos de moléculas verdes. A diretora financeira da companhia, Carmen de Pablo, destacou que o projeto é essencial para a estratégia de transição da empresa. Já para a Exolum, a operação reforça sua posição como operador logístico crítico para a descarbonização das cadeias de suprimentos de energia.

Implicações para o setor energético

A conclusão deste financiamento aponta para uma tendência clara: a busca por infraestruturas que conectem a produção industrial à logística portuária de alta eficiência. Investidores e reguladores observam de perto como esses ativos de médio prazo se tornam garantias de estabilidade em um mercado que transita de combustíveis fósseis para alternativas de baixo carbono. A colaboração entre grandes players industriais e bancos comerciais é o modelo que deve prevalecer para viabilizar investimentos multibilionários no setor.

Para o ecossistema brasileiro, o caso ilustra o tipo de parceria necessária para viabilizar hubs de combustíveis sustentáveis de aviação (SAF) e hidrogênio verde. A integração entre a capacidade logística portuária e a produção industrial é a lição fundamental que o projeto de Huelva oferece para mercados emergentes que buscam liderar a transição global.

Perspectivas futuras

O que permanece sob análise é a velocidade com que a demanda por biocombustíveis 2G acompanhará a capacidade logística instalada. A eficiência do Muelle Sur será testada assim que a planta atingir sua capacidade máxima de produção. O mercado aguarda a conclusão definitiva da obra para medir o impacto real nos custos operacionais e na competitividade da Moeve frente a outros players europeus.

O sucesso desta captação pode servir como precedente para outras empresas do setor que buscam capital em um ambiente de taxas de juros que ainda impõem desafios ao custo do crédito. A capacidade de demonstrar a viabilidade técnica e financeira de um ativo estratégico antes mesmo de sua conclusão total é, possivelmente, o maior trunfo das companhias neste momento.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España