Mohamed Kande, presidente global da PwC, apresentou uma visão otimista sobre o impacto da inteligência artificial no mercado de trabalho durante o evento VivaTech, em Paris. Segundo o executivo, a adoção da IA em escala está impulsionando o crescimento do quadro de funcionários em vez de reduzir postos, desafiando narrativas predominantes de um colapso iminente no setor de serviços profissionais. A análise de Kande baseia-se na premissa de que a tecnologia atua como um multiplicador de produtividade, exigindo mais capital humano para gerenciar e operacionalizar as novas capacidades.

A tese central defendida pelo líder da consultoria é que a IA não substitui o trabalho, mas altera fundamentalmente a natureza das funções. Para Kande, o colaborador moderno ganha uma espécie de "superpoder" ao utilizar ferramentas de IA, o que desloca o foco das habilidades técnicas repetitivas para competências interpessoais, como inteligência emocional, julgamento crítico e colaboração. Essa mudança de paradigma sugere que a valorização do profissional está cada vez mais atrelada à sua capacidade de orquestrar a tecnologia em vez de competir com ela.

O paradoxo da contratação em larga escala

Os dados do "2026 global jobs barometer", elaborado pela própria PwC, sustentam a perspectiva de Kande. O relatório, que analisou mais de 1 bilhão de anúncios de emprego, aponta uma divergência clara: empresas com maior exposição à IA cresceram seu quadro de funcionários em 52% desde 2018, enquanto organizações menos expostas registraram um crescimento de 36%. Esse movimento cria um mercado de trabalho de duas velocidades, onde a adoção tecnológica não apenas amplia a escala operacional, mas também eleva a média salarial, com um aumento de 24% contra 17% entre os grupos comparados.

Essa dinâmica sugere que a IA está funcionando como um catalisador de competitividade. Empresas que integram a tecnologia precocemente conseguem absorver demandas mais complexas e expandir suas operações. Consequentemente, a necessidade de talentos que saibam navegar nesse ambiente tecnológico supera a redução de esforço proporcionada pela automação, desmistificando a ideia de que a eficiência tecnológica levaria necessariamente a um enxugamento estrutural das equipes.

A transformação do nível de entrada

Embora o panorama macro seja de expansão, a base da pirâmide profissional enfrenta uma transição delicada. O relatório da PwC indica que vagas de nível de entrada altamente expostas à IA estagnaram. Esse fenômeno reflete a substituição de tarefas repetitivas e intensivas em dados, que tradicionalmente serviam como porta de entrada para jovens talentos. A própria PwC, em movimento estratégico nos Estados Unidos, planeja reduzir a contratação de juniores em um terço nos próximos três anos, evidenciando que o "degrau" inicial da carreira está sendo redesenhado.

A solução para essa lacuna parece ser a "seniorização" das funções iniciais. Vagas de entrada que incorporam competências avançadas cresceram 35% entre 2019 e 2025, enquanto posições que mantiveram o escopo tradicional encolheram. Isso indica que a barreira de entrada para o mercado está subindo: as empresas buscam profissionais que já possuam um repertório técnico e cognitivo mais robusto desde o início, forçando uma reavaliação dos modelos de treinamento e formação de talentos nas grandes corporações.

Implicações para o ecossistema de talentos

A mudança na demanda por talentos exige uma adaptação rápida das instituições de ensino e dos próprios profissionais. Se a IA absorve o trabalho de análise básica e processamento, as empresas passam a priorizar perfis híbridos, como engenheiros e especialistas em dados, áreas onde a demanda supera a oferta disponível. A criação de trilhas de carreira dedicadas a engenharia na PwC, algo inédito para a firma, ilustra a urgência dessa transição para um modelo de negócio mais técnico e menos centrado apenas em consultoria tradicional.

Para o mercado brasileiro e global, a lição é clara: a resiliência profissional não virá da proteção de tarefas obsoletas, mas da capacidade de elevar a complexidade das entregas individuais. Reguladores e gestores de recursos humanos terão o desafio de equilibrar essa transição, garantindo que o mercado não crie um hiato permanente entre os profissionais qualificados para a era da IA e aqueles cujas competências foram automatizadas pela tecnologia.

O futuro do trabalho em aberto

O debate sobre o impacto da IA permanece inconclusivo no que tange à sustentabilidade desse crescimento de contratações a longo prazo. A grande questão é se a economia global conseguirá absorver a transição de funções sem gerar um desemprego estrutural de longo prazo para os perfis menos adaptáveis. O que se observa, por ora, é um período de intensa reconfiguração de competências e de modelos de negócio.

Observar como as empresas equilibrarão a redução de vagas juniores com a necessidade de renovar seus quadros será fundamental nos próximos anos. A transição para uma força de trabalho "ampliada" por IA é um processo em curso que, ao que tudo indica, exigirá uma revisão profunda de como o valor é criado e remunerado no ambiente corporativo. A forma como essa equação se resolverá definirá a próxima década de produtividade global.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider