A cidade industrial de Baotou, na Mongólia Interior, abriga um lago artificial de 10 km² que figura entre os mais poluídos do mundo. Por décadas, o local serviu como depósito para resíduos das indústrias de ferro, aço e terras raras da China. Entre os efluentes tóxicos, destaca-se a presença de tório radioativo, um subproduto do processamento de monazita, minério fundamental para a obtenção de elementos de terras raras (ETR) como disprósio, túrbio, ítrio e érbio.
O Monopólio da Monazita
A China consolidou sua posição de liderança global na indústria de terras raras, e a monazita é um pilar dessa hegemonia. O país não apenas detém vastas reservas e é o maior processador de monazita do mundo, mas também importa grandes volumes do minério. A principal fonte doméstica é o complexo de Bayan Obo, a 150 km de Baotou, que, embora primariamente uma mina de ferro, contém o maior depósito conhecido de ETR do planeta. A extração de bastnasita, o principal minério em Bayan Obo, permite legalmente a mineração de monazita no mesmo local. No ano passado, o minério de Bayan Obo produziu cerca de 170.000 toneladas de metais de terras raras, com 30% a 40% desse volume sendo monazita. Essa quantidade, por si só, já seria suficiente para fazer da China a maior processadora de monazita do mundo.
Importações e Controle Estratégico
O interesse chinês pela monazita se estende às importações, que ultrapassaram 70.000 toneladas no último ano. O transporte marítimo de monazita concentrada apresenta desafios únicos, pois sua radioatividade a classifica como carga perigosa (Classe 7) pelo Código Marítimo Internacional de Mercadorias Perigosas. Isso restringe sua importação a apenas quatro portos chineses. Além disso, a aquisição de certos tipos de monazita é supostamente controlada por joint ventures estatais, como a China National Nuclear Corp. e a Shenghe Resources. No entanto, uma parcela significativa da monazita importada não segue esses canais. Empresas importam areias minerais pesadas, que contêm cerca de 2% a 3% de monazita, separam os concentrados valiosos e, em seguida, processam a monazita. Essa estratégia permite contornar os controles mais rigorosos aplicados à monazita concentrada.
Geopolítica e Desafios Ambientais
Nos últimos anos, a China intensificou seus esforços para garantir o suprimento de minérios de terras raras globalmente. Um dos motivos é a perda de suprimentos recentes, como o fim dos contratos de exportação da MP Materials, dos EUA, que antes vendia seus concentrados para uma afiliada da Shenghe Resources. Há especulações de que a China busca, estrategicamente, garantir direitos sobre depósitos e projetos no exterior, tornando-os indisponíveis para desenvolvedores não chineses. Essa abordagem, aliada ao controle sobre o processamento e à vasta experiência acumulada, fortalece o monopólio chinês. A situação ambiental em Baotou, exemplificada pelo lago Weikuang, serve como um alerta sobre os custos da exploração intensiva de recursos, um legado que o mundo agora precisa considerar ao tentar diversificar suas cadeias de suprimentos de terras raras.
O Futuro da Monazita
Enquanto nações ocidentais investem bilhões para fortalecer suas cadeias de suprimentos de terras raras, a experiência chinesa com a monazita oferece lições cruciais. A questão ambiental, embora tenha levado a China a apertar regulamentações internas, não diminuiu seu apetite global pelo minério. A capacidade de processar monazita em larga escala e de forma estratégica posiciona o país em uma vantagem competitiva difícil de superar. O desafio para o resto do mundo é encontrar um equilíbrio entre a necessidade de garantir o acesso a esses materiais críticos e a gestão responsável de seus impactos ambientais e geopolíticos.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · IEEE Spectrum





