Uma pequena pedania na província de Huesca, na Espanha, deu um recado contundente contra a expansão desenfreada de centros de dados. Cuarte, com apenas 144 eleitores, realizou a primeira consulta popular do tipo em Aragão para decidir sobre a instalação de um novo centro de dados da Amazon (AWS) em suas proximidades, no Parque Tecnológico Walqa. O resultado foi um "não" quase unânime: 99,1% dos votantes se opuseram ao projeto, em uma consulta que teve mais de 81% de participação.
Conflito entre desenvolvimento e comunidade
O Parque Tecnológico Walqa, criado em 2002 com a promessa de ser um polo de inovação em TIC, biotecnologia e energias renováveis, agora se vê no centro de um debate sobre o modelo de desenvolvimento industrial. A expansão da infraestrutura de centros de dados, que consomem grandes quantidades de energia e água, tem gerado resistência em diversas partes da Europa, e Cuarte é o mais recente exemplo desse conflito. A consulta, organizada pela Associação de Vecinos de Cuarte, abordou não apenas o projeto específico da Amazon, mas também a política geral do Governo de Aragão de incentivar a construção de 34 novos centros de dados.
Implicações para Aragão e o setor
A decisão de Cuarte, embora não vinculante, coloca pressão sobre as autoridades locais e regionais. A política de Aragão de atrair centros de dados, com investimentos bilionários como os da AWS, enfrenta agora o escrutínio da opinião pública e de comunidades diretamente afetadas. As preocupações dos moradores giram em torno do consumo de água — estimado em mais de 755.000 metros cúbicos anuais para refrigeração na região —, do consumo elétrico — que pode chegar a um quarto da eletricidade consumida pela comunidade autônoma — e do impacto no emprego, que tende a ser concentrado na fase de construção, com menos vagas permanentes.
A resistência local como contraponto
O caso de Cuarte não é isolado. Em Zaragoza, um protesto contra um centro de dados da Microsoft já reuniu mais de mil pessoas, com a plataforma "Ni aquí, ni en ningún sitio" exigindo uma moratória. O descontentamento também se estende a questões fiscais, com prefeituras reclamando que empresas como a AWS pagam impostos em Madri em vez de onde operam. Esses movimentos indicam uma crescente conscientização sobre os custos sociais e ambientais da infraestrutura digital, desafiando a narrativa de que tais projetos trazem apenas benefícios.
Perguntas em aberto
A consulta de Cuarte deixa em aberto a capacidade do governo de Aragão de conciliar sua estratégia de atração de investimentos em tecnologia com as preocupações ambientais e sociais das comunidades locais. A forte oposição popular pode forçar uma reavaliação do modelo de expansão, abrindo caminho para discussões mais amplas sobre sustentabilidade e desenvolvimento regional. Resta saber se a "vontade popular" expressa em Cuarte será ouvida e considerada pelas instâncias decisórias. Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka




