O Morgan Stanley avalia que a desvalorização de cerca de 27% das ações da RD Saúde (RADL3) neste ano é desproporcional à qualidade dos fundamentos da companhia. Segundo relatório da instituição, o movimento de venda recente reflete mais um receio generalizado do mercado com o setor farmacêutico do que uma deterioração real do desempenho operacional da empresa. Em reação, os papéis da rede registraram alta nesta terça-feira, consolidando a tese do banco de que o patamar atual de preços oferece uma oportunidade atrativa para investidores.

A recomendação de compra, ou 'overweight', é sustentada por uma bateria de análises que inclui múltiplos históricos, fluxo de caixa descontado e retorno sobre patrimônio. Embora o preço-alvo tenha sido ajustado de R$ 28 para R$ 26, o Morgan Stanley enfatiza que a revisão decorre estritamente de um custo de capital mais elevado, e não de uma fragilidade estrutural da RD Saúde.

Perspectivas sobre o mercado de GLP-1

O banco projeta que as preocupações recentes com os medicamentos para obesidade e diabetes, como o Mounjaro, são passageiras. A desaceleração observada nas vendas desse segmento seria fruto de limitações temporárias de oferta e sazonalidade, e não de uma queda na demanda estrutural. Com a chegada de versões mais acessíveis de semaglutida, a expectativa é que o fluxo de pacientes retorne aos canais formais de farmácia.

O Morgan Stanley estima que a categoria de GLP-1 representará cerca de 19% das vendas brutas da RD Saúde até 2029, ante os 9,4% esperados para 2025. Esse crescimento deve fortalecer a margem da companhia e reforçar sua posição de liderança, consolidando o varejo farmacêutico como um ativo de natureza defensiva e recorrente.

Impactos da jornada de trabalho e resiliência

A análise do banco sobre a reforma da jornada 5×2 indica que, embora exista um aumento potencial nos custos trabalhistas, o impacto financeiro para a Raia Drogasil será contido. Com ajustes operacionais, o custo adicional estimado seria de aproximadamente R$ 163 milhões anuais, representando apenas 0,32% da receita bruta projetada para 2026. A rede, que já opera com escalas otimizadas, demonstra capacidade de mitigar pressões externas sem sacrificar a rentabilidade.

Historicamente, o setor farmacêutico brasileiro apresenta baixa correlação com os ciclos da economia. Mesmo em períodos de recessão, a RD Saúde manteve a expansão de margens, amparada pelo envelhecimento da população e pela venda de genéricos, fatores que garantem a previsibilidade do negócio a longo prazo.

O desafio da concorrência digital

Sobre a entrada do Mercado Livre no setor, via aquisição da Cuidamos Farma, o Morgan Stanley adota cautela. O banco aponta que o varejo de medicamentos enfrenta barreiras regulatórias e logísticas severas, como a fiscalização rigorosa de receitas e exigências sanitárias complexas. Para o banco, a escala e a capilaridade física da RD Saúde continuam sendo vantagens competitivas difíceis de serem replicadas por novos entrantes no curto prazo.

Apesar da pressão no sentimento dos investidores em grandes centros urbanos, a tese é de que a disrupção do setor farmacêutico tradicional por plataformas digitais generalistas ainda carece de evidências concretas. A integração entre canais físicos e digitais, ponto forte da estratégia atual da rede, permanece como um diferencial estratégico.

O futuro da RD Saúde

O que permanece em aberto é a velocidade com que a concorrência digital conseguirá escalar suas operações sem comprometer as margens ou incorrer em riscos regulatórios. Além disso, a evolução da política de preços da CMED e possíveis mudanças no cenário macroeconômico brasileiro continuam no radar dos analistas.

O mercado observará atentamente se a RD Saúde conseguirá manter o ritmo de abertura de lojas enquanto integra novas categorias de produtos de saúde. A capacidade da empresa de equilibrar o crescimento orgânico com a eficiência operacional será o principal termômetro para a confiança dos investidores nos próximos trimestres.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney