A conta de água em Santa Cruz, na Califórnia, pode saltar de US$ 64 para US$ 120 mensais até 2050, segundo pesquisa publicada na revista Nature Sustainability. O aumento, impulsionado pela necessidade de novas obras de infraestrutura, reflete a vulnerabilidade extrema da região à escassez hídrica provocada pelas mudanças climáticas.

O estudo, que contou com a participação de Sarah Fletcher, professora da Universidade Stanford, diferencia-se de previsões tradicionais por isolar o impacto climático dos custos operacionais históricos. Enquanto a inflação geral de consumo tem sido superada pelo encarecimento da água nos EUA, o cenário futuro para cidades com estresse hídrico aponta para uma aceleração ainda mais acentuada desse fenômeno.

O dilema da infraestrutura local

A escolha por Santa Cruz como objeto de estudo deve-se à sua dependência exclusiva de chuvas locais e à capacidade limitada de armazenamento de seu reservatório, que comporta apenas o equivalente a um ano de consumo. Diferente de metrópoles que importam água de outras bacias, a cidade esgotou grande parte das medidas de eficiência no uso, como a restrição à irrigação de jardins e a adoção de eletrodomésticos de baixo consumo.

Essa saturação de medidas de demanda força o município a buscar investimentos vultosos em infraestrutura de oferta, como plantas de dessalinização ou sistemas de reciclagem de águas residuais. A análise sugere que, sem aportes governamentais diretos, o custo dessas obras será integralmente repassado aos consumidores finais, alterando o patamar de preço do serviço público.

Mecanismos de pressão inflacionária

O mecanismo de aumento de preços é direto: a escassez climática exige soluções de engenharia que possuem alto custo de capital. Em cenários de seca prolongada, a infraestrutura tradicional torna-se obsoleta ou incapaz de garantir a segurança hídrica, obrigando concessionárias a buscarem fontes alternativas que demandam mais energia e tecnologia para operação.

Este cenário cria um ciclo de inflação induzida pelo clima, um fenômeno que já preocupa formuladores de políticas públicas e economistas em diversos setores, desde alimentos até seguros. A gestão de ativos hídricos passa a ser, portanto, um componente crítico da macroeconomia, onde a resiliência física dos sistemas dita a estabilidade dos preços para o consumidor final.

Tensões sociais e o padrão de acessibilidade

O impacto financeiro não será uniforme, atingindo desproporcionalmente as famílias de baixa renda. Atualmente, cerca de 20% dos domicílios de Santa Cruz já pagam pelo serviço de água um valor superior ao padrão de acessibilidade definido pela Agência de Proteção Ambiental (EPA) dos EUA. Sob condições climáticas severas, esse contingente pode chegar a 35%.

Para o ecossistema brasileiro, o caso serve como um alerta sobre a necessidade de planejamento de longo prazo em cidades com dependência de mananciais superficiais sujeitos a variações climáticas. A tensão entre o custo da infraestrutura necessária e a capacidade de pagamento da população é um desafio que deve permear as discussões de saneamento e regulação de tarifas nos próximos anos.

Incertezas e o futuro da gestão hídrica

O que permanece em aberto é a capacidade de resposta das esferas governamentais para mitigar esses custos. A ausência de subsídios públicos, assumida na projeção do estudo, pode ser contornada por planos municipais de gestão, como a transferência de água entre distritos vizinhos ou o armazenamento de águas tratadas em aquíferos.

A eficácia dessas medidas alternativas, contudo, ainda precisa ser testada diante da velocidade das mudanças climáticas. O monitoramento dessas políticas de adaptação será fundamental para entender se a água se tornará um bem de luxo ou se o planejamento urbano conseguirá manter o acesso universal em um mundo mais quente e seco.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune