A Multiplan, gigante do setor de shopping centers, está executando um ambicioso movimento de volta às suas origens como incorporadora. A companhia está erguendo o Golden Lake, um bairro planejado de altíssimo padrão em Porto Alegre, com um valor geral de vendas (VGV) estimado em R$ 5,2 bilhões. O projeto, que inclui apartamentos de até R$ 28 milhões, está sendo construído em um terreno contíguo ao BarraShoppingSul, um ativo da própria empresa.
Mais do que uma simples diversificação, a estratégia desenha um ecossistema fechado. A tese é que o shopping atrai moradores, que por sua vez se tornam consumidores cativos do varejo, gerando uma simbiose que beneficia as duas pontas do negócio. Segundo reportagem da Bloomberg Línea, a linha de imóveis para venda já representa cerca de 14% da receita da Multiplan, um aumento em relação aos 10% históricos, sinalizando uma mudança estrutural no balanço da companhia.
A simbiose entre varejo e residência
A lógica por trás do Golden Lake é transformar um ativo imobiliário — o terreno — em um motor duplo de geração de caixa. De um lado, a venda das unidades residenciais de luxo. Do outro, o fortalecimento do fluxo de consumidores no shopping. O JPMorgan estima que os futuros moradores do complexo poderiam adicionar mais de R$ 600 milhões por ano às vendas dos lojistas do BarraShoppingSul. É um jogo de longo prazo que aposta na criação de uma comunidade para sustentar o varejo.
Essa mudança no mix de negócios, no entanto, tem um efeito contábil direto. Enquanto a operação de shoppings da Multiplan ostenta margens operacionais líquidas de 95%, a venda de imóveis opera em uma faixa mais modesta, entre 20% e 30%. O CFO da empresa, Armando d’Almeida Neto, explicou que uma queda na margem consolidada não seria um sinal de performance ruim, mas uma consequência natural da nova composição de receitas. A leitura é que a companhia está trocando margem por crescimento absoluto e resiliência estratégica.
Um modelo difícil de replicar
O sucesso da iniciativa em Porto Alegre levanta a questão sobre sua escalabilidade. A própria Multiplan admite que replicar o modelo em outras capitais é um desafio. O trunfo do Golden Lake foi a aquisição de um terreno vasto, comprado do Jockey Club local após uma negociação de 15 anos. Encontrar áreas similares adjacentes a shoppings já estabelecidos em praças adensadas como São Paulo e Rio de Janeiro é praticamente impossível.
Isso torna o projeto gaúcho um ativo único, cuja criação de valor é acompanhada de perto pelo mercado. Analistas do JPMorgan e do Bank of America veem o empreendimento como um catalisador para as ações da companhia, podendo adicionar mais de R$ 1 bilhão em lucro líquido ao longo de uma década. A forte velocidade de vendas, mesmo em um cenário econômico desafiador, valida a aposta no segmento de altíssimo padrão e serve de contraponto a estratégias de outras operadoras, como a Allos, que também explora projetos multiuso.
A Multiplan executa uma estratégia que funde sua expertise em varejo com seu DNA de incorporadora. O Golden Lake não é apenas um projeto imobiliário; é a materialização de uma visão de longo prazo onde o shopping não é mais um destino, mas o centro de uma comunidade que a própria empresa construiu. A questão que permanece é se este é um movimento único, fruto de uma oportunidade rara, ou o protótipo de uma nova identidade para a gigante dos shoppings.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Bloomberg Línea





