No coração pulsante de Paris, sob os alicerces do moderno Hôtel Dieu, uma descoberta arqueológica notável promete reescrever os primeiros capítulos da história da capital francesa. Uma muralha de pedra e madeira, com impressionantes 22 metros de comprimento, desenterrada durante obras de construção, emergiu como uma peça-chave em um debate que há décadas divide os arqueólogos: onde, precisamente, Lutetia, a ancestral Lutetia, lançou suas fundações?
A Île de la Cité, a ilha no rio Sena que hoje abriga a Catedral de Notre-Dame e a Sainte-Chapelle, sempre foi um local de interesse histórico. No entanto, a evidência física de um assentamento gaulês significativo ali era escassa, levando muitos a questionar as descrições de Júlio César em seus relatos sobre as Guerras Gálicas. César descreveu Lutetia como uma cidade fortificada em uma ilha no Sena, habitada pela tribo Parisii, que deu nome à cidade. Ele narrou como os habitantes queimaram o assentamento e destruíram suas pontes à medida que as tropas romanas se aproximavam em 52 a.C., antes de serem eventualmente conquistados.
Por muito tempo, a precisão geográfica de César foi posta em dúvida. Escavações em Nanterre, a oeste de Paris, apresentaram mais vestígios de um grande povoamento gaulês, levando alguns estudiosos a acreditar que Lutetia estaria localizada ali. A descoberta desta muralha, datada por radiocarbono entre 200 a.C. e 10 a.C., um período que coincide com a conquista romana da Gália, altera significativamente esse cenário. Matthieu Poux, professor de arqueologia da Universidade de Lyon II e anteriormente cético quanto à localização na Île de la Cité, declarou ao The New York Times que a muralha dissipou suas dúvidas, afirmando não ter mais "nenhuma dúvida" de que a antiga cidade estava ali.
Um detalhe particularmente intrigante é o estado da muralha: ela foi encontrada queimada. Vestígios de sementes carbonizadas e os restos de um edifício de madeira incendiado nas proximidades levantam a possibilidade tentadora de que os arqueólogos tenham encontrado vestígios físicos da destruição descrita por César há mais de dois milênios. Embora os pesquisadores ainda sejam cautelosos e o Ministério da Cultura francês insista que mais trabalho é necessário para determinar a data exata de construção e o propósito da muralha, a descoberta preenche uma lacuna imensa na história de uma das cidades mais escavadas do mundo. Enquanto a Paris romana é bem documentada, com assentamentos conhecidos sob o Quartier Latin e os Jardins de Luxemburgo, a Paris gaulesa permaneceu um enigma. Poux estima que esta única escavação aumentou o acervo de evidências sobre o assunto em "dez vezes". Futuras escavações estão planejadas ao redor do hospital, e a muralha será eventualmente removida para estudo e exibição, prometendo revelar ainda mais sobre as origens de Paris.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews





