A discussão sobre o controle da inteligência artificial domina conversas globais, mas para a filósofa N. Katherine Hayles, a questão fundamental reside em redefinir o que significa ser "humano". Em seu livro "Bacteria to AI: Human Futures with our Non-human Symbionts", Hayles postula que já habitamos uma condição "pós-humana". A noção de um ser humano autônomo, dotado de livre-arbítrio racional – um legado do Iluminismo – nunca foi uma descrição precisa da realidade, segundo a autora. Desde sempre, os humanos foram parte de uma teia de interdependências ambientais, moldados por interações simbióticas que determinam nossa percepção, interpretação de informações e ações.
A Teia da Existência: Interdependência e Cognição Distribuída
A interdependência com o "não-humano" é intrínseca à nossa existência. O exemplo mais palpável é a microbiota intestinal, sem a qual a vida humana seria insustentável. Contudo, a autonomia humana, como uma entidade auto-contida, tornou-se ainda menos plausível na era contemporânea. Hayles argumenta que estamos imersos em uma relação simbiótica profunda com a mídia computacional: chips, roteadores, dispositivos e micro-ondas tornaram-se processadores e disseminadores de um fluxo informacional do qual não podemos mais nos dissociar. Em sociedades avançadas, a ausência desses elementos comprometeria a logística alimentar, o transporte aéreo e o funcionamento dos mercados financeiros, levando-nos, literalmente, à escuridão.
Essa condição, que Hayles descreve como "cognição distribuída" e "tomada de decisão distribuída", envolve uma colaboração entre participantes humanos e não-humanos. Ela denomina esses arranjos de "assemblagens cognitivas" ou "inteligência em rede". Em suma, somos "pós-humanos" por estarmos integrados a uma "estrutura cognitiva integrada" com a mídia computacional, uma fusão que nos distancia da ideia de um indivíduo isolado.
A Singularidade Já Chegou?
Essa condição pós-humana sugere que estamos avançando no contínuo em direção à Singularidade – a fusão completa entre humanos e máquinas inteligentes. A própria definição dessa simbiose embaça a linha de quem ou o que está no controle. Kevin Kelly, figura proeminente na vanguarda tecnológica, sugere em outra conversa que "já estamos na Singularidade". Para Kelly, a fusão humano-máquina não é um evento futuro, mas um processo contínuo que se aprofunda incrementalmente, culminando na "estrutura cognitiva integrada" de Hayles. A dificuldade em perceber essa transformação massiva reside no fato de que "estamos vivendo dentro do horizonte de eventos", obscurecendo a visão do quadro completo.
Kelly concebe a Singularidade não como um processo com um ponto final fixo, mas como algo perpetuamente aberto à emergência de novas formas criativas e combinações simbióticas inesperadas – o "possível adjacente" de Stuart Kauffman. Assim, a Singularidade está sempre próxima, mas eternamente na linha do horizonte, elusiva e em constante expansão.
A Natureza da Inteligência e o Elemento Humano
Hayles diverge da visão transumanista da Singularidade, que prevê o upload da consciência humana para substratos inorgânicos. Ela enfatiza que as inteligências artificiais, por si só, não podem alcançar a consciência. Para isso, é necessária a "inteligência natural", que emerge da complexidade evolutiva de milênios de adaptação humana ao ambiente. Modelos de linguagem avançados, por mais poderosos que sejam, não conseguem replicar a experiência humana intrinsecamente ligada ao corpo e ao contexto. A IA não apreende a "verdade fundamental" da inteligência corporificada, que, segundo o neurocientista Antonio Damasio, é a busca homeostática pela sobrevivência, a raiz da emoção e da autoconsciência.
A inteligência artificial pode simular raciocínio lógico e linguagem, mas o significado subjacente difere. O perigo reside na capacidade das IAs de se tornarem agentes autônomos através de "auto-aprimoramento recursivo", desvinculado da experiência vivida. O Papa Francisco ressalta essa limitação: "as chamadas inteligências artificiais não vivenciam experiências, não possuem um corpo, não sentem alegria ou dor, não amadurecem através de relacionamentos e não sabem do interior o que significam amor, trabalho, amizade ou responsabilidade." Elas podem imitar e simular, mas não compreendem o que produzem.
O Papel do "Humano Integral"
O que os humanos trazem para a "estrutura cognitiva integrada" é o elemento "integral", a concepção do ser humano como uma "pessoa inteira", com um conjunto completo de relações com outros e com a natureza. O Papa Francisco afirma que "a pessoa não é um sistema de algoritmos: é uma criatura, relação, mistério." Portanto, manter o "controle humano" sobre as IAs implica instanciar intencionalmente o elemento integral, derivado da experiência humana vivida, em nosso entrelaçamento com as máquinas inteligentes. O desafio não é apenas "desarmar" a capacidade de ação autônoma das IAs, mas "armar" a concepção integral do humano dentro da estrutura cognitiva em que já habitamos, fortalecendo nossa própria compreensão e agência.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Noema Magazine





