A adoção da inteligência artificial no ambiente corporativo pode ter um efeito deflacionário sobre os salários nos próximos cinco anos. Essa é a expectativa de uma parcela significativa das empresas na Alemanha, a maior economia da Europa, segundo uma pesquisa conduzida pelo Instituto de Pesquisa Econômica de Munique (Ifo) com mais de 3.000 companhias que já utilizam a tecnologia.
O estudo, divulgado em junho, não aponta para um impacto homogêneo. Pelo contrário, a percepção é que a IA irá acentuar a diferença de remuneração com base na senioridade. A tese que emerge é clara: enquanto a tecnologia pode aumentar a produtividade de profissionais experientes, ela tende a substituir tarefas hoje executadas por quem está no início da carreira, pressionando seus salários para baixo.
O prêmio da experiência
Os dados do Ifo detalham essa cisão. Cerca de metade das empresas consultadas antecipa quedas salariais para os recém-chegados: 50,8% para graduados com menos de cinco anos de experiência e 48,3% para não graduados na mesma faixa. Para os profissionais com mais de cinco anos de carreira, a percepção de risco é menor, mas ainda relevante: 37,5% das firmas esperam cortes para os graduados e 40% para os não graduados.
A leitura aqui é que as companhias enxergam a IA como uma ferramenta capaz de automatizar as funções de entrada, que muitas vezes envolvem tarefas repetitivas e de menor complexidade. Para os trabalhadores juniores, a tecnologia surge como um substituto. Para os seniores, cujo valor está no julgamento crítico, na estratégia e na experiência acumulada, a IA funciona como um complemento, um amplificador de suas capacidades.
Ganhos seletivos
Essa dinâmica se reflete também nas expectativas de aumento salarial. Apenas uma pequena minoria das empresas prevê que a IA resultará em melhores remunerações. O benefício, quando existe, é concentrado no topo: 26% das companhias esperam aumentos para graduados com mais de cinco anos de experiência. Na outra ponta, para trabalhadores sem diploma e com pouca experiência, o percentual é de apenas 5,9%.
Setorialmente, os provedores de serviços são os que mais preveem quedas nos salários, seguidos por varejo e manufatura. O setor de construção é o menos pessimista. A pesquisa do Ifo oferece um retrato pragmático e um tanto pessimista do futuro do trabalho visto pelas empresas alemãs. A promessa de ganhos de produtividade com a IA parece vir acompanhada de uma redistribuição de valor que pode não favorecer a todos, tornando a experiência profissional um ativo ainda mais crucial.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





