A corrida global por minerais estratégicos, essenciais para a transição energética, parece ainda não ter chegado com força à Amazônia Legal. Um novo relatório da Agência Nacional de Mineração (ANM) mostra que, embora a região concentre 48,2% dos processos minerários para minerais críticos do Brasil, a atividade permanece firmemente ancorada em commodities tradicionais, notadamente o ouro.

O diagnóstico expõe um descompasso entre o potencial geológico do país e a realidade econômica e operacional da mineração na fronteira amazônica. Enquanto o discurso global aponta para a necessidade de diversificar as cadeias de suprimento de terras raras, hoje dominadas pela China, a prática no Brasil segue um roteiro conhecido, com foco em extração de menor complexidade tecnológica e retorno mais imediato.

O peso da tradição

Os números do relatório, intitulado “Amazônia Legal: Minerais Críticos e Estratégicos”, são eloquentes. Dos mais de 38 mil processos minerários na região, o ouro responde por 67% do total, ou 25,9 mil requerimentos. É seguido à distância pelo estanho (10%) e pelo cobre (7,3%). As terras raras, por sua vez, aparecem diluídas em uma categoria genérica que, somada a outras substâncias, não chega a 1% dos processos.

O capital segue a mesma lógica. Em 2024, os investimentos declarados em pesquisa mineral na Amazônia Legal foram liderados pelo ouro (65,8%) e pelo cobre (19,1%). Para as terras raras, o montante foi de apenas R$ 1,2 milhão. A leitura é que o ecossistema de mineração na região, dos pequenos garimpeiros às grandes empresas, está estruturado em torno de uma economia extrativista de décadas, com pouca infraestrutura e incentivo para projetos de alta complexidade.

Potencial adormecido

O levantamento da ANM também aponta que quase 80% de todos os processos na Amazônia Legal estão em fases iniciais, como requerimentos de pesquisa e autorizações de prospecção. Isso sugere que a maior parte do potencial mineral da região, especialmente para novos materiais, permanece desconhecida ou inexplorada.

Para a própria agência, este cenário representa uma oportunidade. A ANM defende que a Amazônia é peça-central para a Política Nacional de Minerais Críticos justamente por seu potencial latente. O desafio, no entanto, é monumental: transformar uma fronteira de exploração tradicional em um polo de mineração tecnológica e sustentável, capaz de inserir o Brasil de forma relevante na geopolítica dos materiais do futuro.

A demanda global por terras raras e outros minerais da transição energética não dá sinais de arrefecer. A questão que o relatório da ANM deixa no ar é se o Brasil conseguirá capitalizar seu patrimônio geológico a tempo, ou se a febre do ouro continuará a ditar as regras na maior floresta tropical do mundo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney