Enquanto a União Europeia avança nas discussões regulatórias sobre o euro digital, um movimento de resistência analógica ganha força. A associação espanhola Denaria está instando as autoridades de seu país a defenderem em Bruxelas um ponto que parece anacrônico, mas é central para a coesão social: a garantia de acesso e aceitação do dinheiro em espécie em todo o bloco.
A pressão ocorre durante os “trílogos” — negociações entre a Comissão, o Parlamento e o Conselho Europeu — que definirão o futuro do dinheiro no continente. A leitura aqui é que o caso espanhol serve como um microcosmo para um debate europeu mais amplo: como equilibrar a inevitável digitalização das finanças com a proteção da inclusão e da liberdade de escolha dos cidadãos.
O contrapeso à digitalização
Para a Denaria, a questão é um direito fundamental. A organização argumenta que a liberdade de escolher como pagar deve ser protegida, sem discriminação. A pauta não é apenas filosófica, mas prática. O grupo exige a manutenção de uma infraestrutura de acesso ao dinheiro — caixas eletrônicos e agências bancárias — que seja “suficiente, próxima e acessível”.
Os dados sustentam a preocupação. Segundo a reportagem da Forbes Espanha, o dinheiro vivo ainda é o principal meio de pagamento para 79% das pessoas com mais de 64 anos no país. Em zonas rurais sem agências bancárias, 71% dos moradores dependem de cédulas e moedas para suas compras. O movimento não é contra o euro digital, mas defende uma “transição digital inclusiva”, onde o físico e o digital convivam de forma complementar.
Um espelho para o Estado
A associação também aponta uma certa hipocrisia por parte do poder público. Através de um canal de denúncias, a Denaria observou que a própria administração pública espanhola, por vezes, descumpre a lei ao recusar pagamentos em espécie e exigir transações digitais. É uma crítica direta à aparente pressa em digitalizar serviços sem considerar as barreiras criadas.
Outro ponto de atrito é o limite de pagamento em dinheiro na Espanha, fixado em 1.000 euros — um valor que, segundo a organização, desincentiva o uso e contrasta com a recomendação do próprio Banco Central Europeu, que estabeleceu um patamar de 10.000 euros. O recado para os reguladores em Bruxelas é claro: a inovação não pode se tornar um novo mecanismo de exclusão.
A discussão em torno do euro digital definirá não apenas a tecnologia monetária do futuro, mas o tipo de sociedade que a Europa pretende construir. A pressão de grupos como a Denaria serve como um lembrete de que, na corrida pela modernização, a infraestrutura mais importante a ser preservada talvez seja a da inclusão.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España




