A realeza nem sempre ouve apenas elogios. Em um evento sobre saúde mental em Madri, a rainha Letizia da Espanha foi confrontada com uma denúncia direta do Conselho Geral de Enfermagem (CGE). A vice-presidente da entidade, aproveitando a plataforma, classificou a proporção de enfermeiras por paciente no país como uma “ratio indigna”.

O movimento foi um ato calculado de advocacy. Ao levar a pauta a um palco com máxima visibilidade, a liderança da enfermagem espanhola busca transformar um problema estrutural em um debate público nacional. A questão central não é apenas numérica, mas sobre o modelo de cuidado e o reconhecimento da profissão.

O cuidar versus o curar

A crítica do CGE, segundo reportagem da Forbes España, ataca a base de um sistema de saúde que, na visão da entidade, é excessivamente centrado na figura do médico. A frase da vice-presidente, “curar é imprescindível, mas cuidar também”, resume a tese: a saúde não se constrói com a subordinação de uma profissão a outra, mas com a integração de talentos.

Em um encontro focado em saúde mental, o argumento ganha ainda mais força. O acompanhamento contínuo, a escuta e o suporte ao paciente — pilares do trabalho da enfermagem — são cruciais. Uma proporção inadequada de profissionais inviabiliza esse cuidado, transformando o atendimento em um processo meramente reativo.

O palco e a política

A escolha do momento e da audiência não foi acidental. Denunciar a precariedade do sistema diante da chefe de Estado simbólica do país é uma estratégia de comunicação de alto impacto. Transforma uma estatística fria em uma questão de dignidade profissional e nacional, forçando o tema para a agenda da mídia e, consequentemente, da política.

O desafio enfrentado pela enfermagem espanhola ecoa em diversos sistemas de saúde pelo mundo, inclusive no Brasil, onde debates sobre o piso salarial, a jornada de trabalho e a valorização da categoria são constantes. A falta de profissionais não apenas sobrecarrega os existentes, mas compromete a segurança e a qualidade do atendimento ao paciente.

A entidade presenteou a rainha com um item de sua campanha “Pergunte à sua enfermeira”, um gesto simbólico para selar a mensagem. A visibilidade foi conquistada. Resta saber se o apelo feito em frente à Coroa será suficiente para mover as engrenagens de um sistema de saúde que, como muitos outros, opera sob forte pressão.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España