O Kremlin efetivou um movimento há muito telegrafado: as operações da Nestlé na Rússia foram colocadas sob “administração externa temporária” por um decreto assinado pelo presidente Vladimir Putin. A medida transfere o controle dos ativos da gigante suíça — além das varejistas francesas Auchan e Lemana Pro (antiga Leroy Merlin) — para uma gestora russa recém-criada, a L.E.V. Management.
O movimento não é uma surpresa, mas um rito de passagem. Ele segue um roteiro já conhecido, aplicado em 2023 à Danone e à cervejaria Carlsberg. Para as multinacionais que optaram por permanecer na Rússia após a invasão da Ucrânia, a conta do risco político chegou. O que era um ativo estratégico virou um peão no tabuleiro geopolítico de Moscou.
O roteiro da expropriação
A figura da “administração externa temporária” é um eufemismo para um sequestro corporativo sancionado pelo Estado. Juridicamente, a Nestlé ainda é a proprietária de suas seis fábricas e dona de marcas como Nescafé e KitKat no país. Na prática, ela perdeu o controle da gestão e, consequentemente, do destino de seus negócios. A nova administradora, uma empresa com ligações pouco transparentes com o governo, passa a ditar os rumos da operação.
A história recente serve de guia. No caso da Danone, a administração externa foi o prelúdio para a venda do negócio a um empresário ligado a um aliado de Putin. A expectativa no mercado é que o mesmo script se repita. A Nestlé, que já havia reduzido sua exposição e focado em produtos “essenciais”, vê agora o restante de sua operação, que ainda emprega 7.000 pessoas, ser apropriado de fato.
O cálculo do risco
Para a Nestlé, o impacto financeiro direto é limitado. A Rússia, que já representou 2% de suas vendas globais, hoje responde por pouco mais de 1%. O prejuízo é mais reputacional e estratégico. A decisão de permanecer no país, justificada pela necessidade de fornecer alimentos básicos à população, se provou uma aposta perdida. Ao final, o Kremlin não fez distinção entre as empresas que saíram e as que ficaram: todos os ativos ocidentais são vistos como moeda de troca ou butim de guerra.
O decreto é um recado para todas as companhias ocidentais que ainda operam em território russo. A mensagem é que não há neutralidade possível. A permanência é vista não como um serviço à população, mas como uma alavanca que o Estado pode usar a qualquer momento. O risco geopolítico deixou de ser um slide em uma apresentação para se tornar uma ordem de expropriação no diário oficial.
A era em que o capital global podia operar de forma agnóstica em regimes autoritários parece chegar ao fim. A questão para as diretorias em Zurique, Paris ou Munique não é mais como mitigar o risco, mas como administrar a perda inevitável de ativos que, na prática, já não lhes pertencem.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Expansión MX





