O mercado financeiro espanhol ganhou um novo organismo de representação com a criação da Associação Espanhola de Empresas de Corporate Finance (Acorfi), entidade que se autodeclara a primeira do país voltada exclusivamente ao setor de finanças corporativas. A iniciativa, presidida por Rosa Cañadas, fundadora da Talea Capital Partners, surge em um momento de busca por maior coesão entre consultorias especializadas, operadores e empresas de médio porte que enfrentam dificuldades crescentes de acesso ao capital.

Segundo comunicado oficial, a Acorfi conta com o apoio estratégico de players como M&A Fusiones y Adquisiciones e a plataforma Deale. A junta diretiva reflete a intenção de abrangência setorial, integrando nomes de peso como CaixaBank, PwC, EFPA España e Mediterranea Capital Partners. O objetivo central é atuar como um think tank capaz de elevar a profissionalização das transações e servir como interlocutor junto a reguladores e instituições públicas.

A fragmentação como obstáculo estrutural

A leitura aqui é que o setor de corporate finance na Espanha padece de uma atomização que prejudica a eficiência das transações, especialmente para as pequenas e médias empresas (PMEs). A Acorfi identifica que, embora exista uma demanda latente por reestruturação societária e sucessão em empresas familiares, falta uma linguagem comum que conecte o pequeno empresário ao ecossistema de investidores e assessores.

Historicamente, o acesso ao financiamento bancário tradicional tem sido o gargalo principal para o crescimento das empresas espanholas em comparação com seus pares europeus. A associação pretende, portanto, preencher esse hiato de conhecimento, oferecendo diretrizes claras sobre como estruturar processos de crescimento e transformação que vão além do crédito bancário convencional.

O mecanismo de influência e educação

A estratégia da Acorfi está estruturada em quatro eixos fundamentais que buscam institucionalizar a prática financeira no país. O primeiro pilar foca na geração de dados e inteligência de mercado, com a publicação de relatórios sobre tendências de acesso a capital. A ideia é que, com métricas comparativas internacionais, as empresas tenham maior clareza sobre o valor de seus ativos e a saúde de suas operações.

Além disso, a entidade aposta na melhoria dos critérios de qualidade nas operações de M&A. Ao criar um ambiente de networking que conecta family offices, consultores e investidores, a associação espera reduzir a assimetria de informação que frequentemente paralisa negócios no mercado espanhol. A pressão constructiva sobre reguladores completa esse mecanismo, visando adaptar as normas à realidade atual do financiamento alternativo.

Implicações para o ecossistema e stakeholders

Para os reguladores, a criação da Acorfi representa uma interlocução mais organizada, o que pode facilitar a discussão sobre a modernização do mercado de capitais espanhol. Para as empresas, a promessa é de uma transição mais suave entre o modelo de gestão familiar e a profissionalização necessária para competir globalmente. A falta de uma cultura de investimento que privilegie o mercado de capitais em detrimento do banco tradicional é um desafio que a associação pretende atacar frontalmente.

Paralelamente, o movimento sinaliza um amadurecimento do ecossistema de consultorias. Ao reunir competidores sob uma mesma bandeira, o setor busca elevar a barra ética e técnica, o que é essencial para atrair investimentos estrangeiros de longo prazo para a Espanha.

Perspectivas e incertezas

O sucesso da Acorfi dependerá de sua capacidade de converter o discurso de think tank em mudanças práticas que alcancem as PMEs, que são o motor da economia espanhola. A incerteza reside em saber se a entidade conseguirá manter a neutralidade necessária entre seus diversos membros, que incluem tanto grandes bancos quanto consultorias boutique de fusões.

O monitoramento dos primeiros relatórios de mercado da associação será o termômetro para avaliar se o impacto será apenas de representação institucional ou se haverá, de fato, uma mudança na cultura financeira das empresas. O mercado aguarda os próximos passos dessa articulação.

A criação da Acorfi marca um movimento de tentativa de centralização de um setor historicamente disperso. Resta observar como a entidade irá equilibrar a pressão por regulação mais flexível com a necessidade de manter altos padrões de transparência e governança em um mercado que exige cada vez mais agilidade e sofisticação.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España