Nate Bargatze, o comediante que deixou um emprego de leitura de hidrômetros para lotar arenas, agora é a voz que a Ford escolheu para defender as profissões qualificadas nos Estados Unidos. Em um momento de alerta sobre a carência de eletricistas, técnicos e outros profissionais essenciais para a economia física, Bargatze traz uma perspectiva única, vinda de quem vivenciou a realidade desses ofícios. Ele descreve seu antigo trabalho como "muito um emprego que tinha benefícios e, tipo, um emprego que você podia crescer e confiar". Essa experiência pessoal o qualifica a endossar os esforços da Ford e de outras empresas em atrair jovens para o trabalho manual, destacando que, se a comédia não tivesse decolado, ele "teria lido hidrômetros".

O valor da experiência humana em um mundo digital

A ascensão meteórica de Bargatze, com sua turnê "Big Dumb Eyes" vendendo mais de 2 milhões de ingressos e um faturamento de US$ 77,5 milhões em 2025, segundo a Pollstar, contrasta com suas origens. No entanto, ele vê paralelos entre a construção de sua carreira e a necessidade de valorizar as profissões manuais. A Ford, junto com parceiros como BlackRock, Google e Carhartt, formou a Aliança para o Futuro das Profissões Qualificadas, que estima a necessidade de preencher 1,7 milhão de vagas anualmente até 2035. A coalizão aponta que os caminhos de formação atuais suprem apenas 55% das vagas necessárias, um déficit causado por aposentadorias e capacidade de treinamento insuficiente.

A IA como catalisadora de valor para o ofício

Bargatze acredita que a inteligência artificial, longe de substituir o trabalho manual, pode torná-lo ainda mais valioso. Ele vê a IA como uma ferramenta democratizadora do conhecimento, facilitando o aprendizado para aqueles que não se adaptaram ao ensino tradicional. "É louco que eles inventaram isso, porque me deu, o idiota, as respostas", disse ele, com seu característico humor autodepreciativo. A IA, segundo ele, transforma a busca por informação de um processo árduo de leitura de artigos em uma interação conversacional, quase como um amigo. Essa acessibilidade à informação, contudo, não elimina a necessidade de presença física e habilidade para instalar, manter e reparar bens tangíveis. "Você vai ser muito protegido", é a mensagem que ele envia aos trabalhadores de ofício.

O renascimento da experiência ao vivo

Essa crença no valor insubstituível do humano se estende à sua estratégia de negócios. O projeto de um parque temático de US$ 350 milhões, Nateland, no Tennessee, é uma extensão de sua visão sobre o entretenimento. Em uma era onde o conteúdo digital e a IA geram ceticismo sobre autenticidade, Bargatze aposta que as pessoas buscarão cada vez mais experiências que não podem ser replicadas por um telefone. "Estou investindo em experiências ao vivo, porque acho que é para onde as coisas estão indo", afirma. Ele observa isso em sua própria casa, com sua filha de 14 anos, que, apesar de imersa no mundo digital, valoriza atividades como escape rooms e passeios a cavalo, onde a interação e a presença são essenciais.

Perguntas em aberto para o futuro do trabalho

O ceticismo crescente dos jovens em relação a conteúdos online, muitos dos quais suspeitam ser gerados por IA, reforça a tese de Bargatze. Ele argumenta que essa geração, "esperta" e "hábil" com a tecnologia, está percebendo que a autenticidade e a experiência tangível têm um valor único. A necessidade de "tocar" e "fazer coisas" impulsionará a demanda por atividades onde a presença física e a interação humana são centrais. A pergunta que permanece é como essa dinâmica moldará o mercado de trabalho e o consumo de entretenimento nos próximos anos, e se a valorização do trabalho manual e das experiências autênticas será suficiente para suprir a demanda crescente.

Para Bargatze, o futuro aponta para um equilíbrio onde a tecnologia facilita o acesso ao conhecimento e a eficiência, mas onde as profissões que exigem habilidade manual e a experiência humana genuína serão cada vez mais protegidas e valorizadas. A capacidade de interagir com a IA para adquirir conhecimento base, combinada com a necessidade intrínseca de atividades presenciais e de ofícios, sugere um cenário promissor para esses setores.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune