A Natura &Co apresentou um resultado que, à primeira vista, justificaria uma forte correção em suas ações: o lucro líquido do segundo trimestre de 2026 caiu 82% em relação ao ano anterior, para R$ 35 milhões, enquanto a receita consolidada encolheu 9%. Contudo, o mercado financeiro leu a história por outro ângulo. Após uma abertura em baixa, os papéis NATU3 inverteram o sinal e fecharam em alta, um movimento que sinaliza mais sobre as expectativas do que sobre os fatos em si.
O paradoxo se explica pelo pessimismo que já estava precificado. A própria companhia havia antecipado um desempenho decepcionante, levando analistas a rebaixarem suas projeções. Quando os números oficiais vieram melhores do que o esperado — especialmente na linha do Ebitda, que superou o consenso em 14% —, a reação foi de alívio. A leitura da Faria Lima é clara: em um cenário de receita cadente, a capacidade de proteger margens e controlar despesas se tornou a principal tese de investimento. Por ora, a disciplina vale mais que o crescimento.
O diagnóstico interno
O CEO da operação latino-americana, João Paulo Ferreira, não buscou subterfúgios. Em teleconferência com analistas, admitiu que “as dificuldades operacionais no Brasil superaram nossas expectativas” e que grande parte dos problemas do trimestre foram “internos, operacionais e fundamentalmente autoimpostos”. A franqueza aponta para uma crise de execução, não de modelo. Entre as causas estão a indisponibilidade de produtos após a implementação do sistema SAP, novas políticas comerciais e um efeito tributário temporário.
A gestão faz questão de contrastar o tropeço brasileiro com o desempenho da operação na América Hispânica, onde a receita voltou a crescer. Para a companhia, isso é a prova de que os fundamentos do negócio permanecem sólidos e que os problemas são passíveis de correção. O argumento é que, uma vez sanadas as falhas de execução no Brasil, a estrutura de custos mais enxuta, resultado de um corte rigoroso nas despesas gerais e administrativas, permitirá uma alavancagem operacional significativa.
A paciência do mercado
Os analistas de grandes bancos como Bradesco BBI, Itaú BBA e Citi, no entanto, mantêm a cautela, com recomendações majoritariamente neutras. Eles reconhecem os méritos da gestão na contenção de despesas — um movimento visto como estrutural —, mas a falta de visibilidade sobre o “ponto de virada na receita” impede uma aposta mais otimista. A reação positiva das ações é vista como um evento de curto prazo, impulsionado pela superação de expectativas muito baixas, e não como o início de uma tendência de alta sustentada.
A Natura conseguiu, com sua disciplina fiscal, ganhar tempo e credibilidade junto ao mercado. A companhia ajustou sua projeção de margem Ebitda para acima de 10% em 2026 e prometeu acelerar a geração de caixa. A mensagem implícita é que a casa está sendo arrumada para o momento em que as vendas voltarem a tracionar. O mercado comprou essa promessa, mas a paciência tem limite.
A questão central para a Natura não é mais se ela consegue ser uma empresa eficiente e enxuta — o segundo trimestre provou que sim. O desafio é voltar a ser uma empresa de crescimento, especialmente em seu mercado mais importante. O alívio na bolsa foi um voto de confiança na gestão, mas a prova real virá quando a estratégia de turnaround começar, ou não, a se refletir na primeira linha do balanço.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





