“Se qualquer ser humano (...) ousar me chamar de ‘middlebrow’, eu pegarei minha caneta e o apunhalarei, até a morte.” A frase, escrita por Virginia Woolf em uma carta não enviada em 1932, cristalizou o desprezo da alta cultura por tudo que habita o meio-termo. Quase um século depois, a expressão “middlebrow” — algo como “cultura mediana” ou “intelectualidade média” — continua sendo um xingamento velado, mesmo com a explosão de obras que se encaixam nessa categoria.
Enquanto o “highbrow” (erudito) tem seus defensores esnobes e o “lowbrow” (popular) foi reabilitado por uma estética hipster, o meio-termo segue como um território órfão e difamado. Em um ensaio para a revista Psyche, os filósofos Aaron Meskin e Jonathan Weinberg propõem não enterrar o middlebrow, mas elogiá-lo. A tese é que o termo não deveria ser um selo de mediocridade, mas uma categoria descritiva que admite obras de qualidade variável, inclusive brilhantes.
O estigma do meio-termo
O desprezo pelo middlebrow nasce de uma suposta desonestidade. A crítica tradicional o acusa de diluir as complexidades da arte erudita para torná-la palatável a um público mais amplo, buscando prestígio sem exigir o esforço intelectual da vanguarda. Seria a arte que aspira à seriedade, mas se preocupa demais com a acessibilidade e o apelo comercial. Pense em dramas de época da TV a cabo, best-sellers de ficção histórica ou exposições de arte com longos guias em áudio que explicam cada detalhe.
Essa visão, no entanto, cria uma falsa dicotomia. Ela assume que valor cultural só pode residir nos extremos: na complexidade formal do “highbrow” ou na suposta autenticidade crua do “lowbrow”. O que Meskin e Weinberg sugerem é que essa estrutura de avaliação é o problema, não as obras em si. O middlebrow não é uma falha, mas um campo vasto e diversificado que merece seu próprio critério de análise, capaz de separar o bom do ruim dentro de seus próprios termos.
Uma categoria a ser redescoberta
Em uma era de algoritmos e sobrecarga de conteúdo, defender o “bom middlebrow” torna-se ainda mais pertinente. Ele representa grande parte da produção cultural de alta qualidade que é, ao mesmo tempo, envolvente e intelectualmente estimulante, sem a barreira de entrada da arte experimental nem a efemeridade do puro entretenimento de massa. É o espaço de séries bem escritas, livros que provocam reflexão sem hermetismo e filmes que equilibram apelo popular com ambição artística.
O convite dos autores, portanto, não é para nivelar por baixo o gosto cultural, mas para expandir nossa capacidade de apreciação. Reconhecer o valor do middlebrow é admitir que uma obra não precisa ser revolucionária para ser excelente. Trata-se de abandonar uma hierarquia rígida e abraçar a ideia de que a cultura de qualidade pode, e muitas vezes deve, existir confortavelmente no meio do caminho.
Com reportagem de Brazil Valley
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