Um extenso estudo que acompanhou mais de 1.700 adultos por 24 anos estabeleceu uma associação preocupante: o hábito de assistir televisão com frequência durante a meia-idade está ligado a alterações na estrutura cerebral que mimetizam os estágios iniciais da doença de Alzheimer. A pesquisa, publicada no periódico científico Alzheimer’s & Dementia, utilizou dados do projeto americano ARIC (Atherosclerosis Risk in Communities).

A principal tese do trabalho, contudo, é mais sutil e relevante. O problema pode não ser apenas o ato de permanecer sentado, mas a qualidade da atividade exercida nesse período. O sedentarismo passivo e de baixo estímulo cognitivo, como o de assistir TV, mostrou-se prejudicial, em contraste com atividades sedentárias que exigem maior engajamento mental, como o trabalho de escritório.

O que importa é como se está sentado

Os pesquisadores identificaram marcadores objetivos nos exames de ressonância magnética dos participantes que assistiam TV com frequência. Entre eles, um maior volume de hiperintensidades da substância branca — um indicador ligado a danos nos pequenos vasos sanguíneos do cérebro — e uma redução no volume de massa cinzenta em regiões críticas, como os lobos frontal e occipital. Essas são consideradas assinaturas estruturais associadas ao declínio cognitivo e ao risco de demência.

Em contrapartida, o tempo passado sentado durante a jornada de trabalho não demonstrou a mesma correlação negativa. A hipótese dos autores é que atividades profissionais demandam concentração, raciocínio e tomada de decisão, funcionando como um estímulo que pode mitigar os efeitos do sedentarismo. Como afirmou Natan Feter, pesquisador da USC Dornsife e um dos autores, a recomendação de "não passar tanto tempo sentado" talvez precise ser ampliada para "considerar as atividades realizadas enquanto se está sentado".

Uma associação, não uma sentença

É crucial notar que o estudo aponta uma correlação, não uma relação de causa e efeito. Ou seja, não se pode afirmar que assistir televisão causa Alzheimer. No entanto, a associação persistiu mesmo após os cientistas ajustarem a análise para fatores como idade, sexo, escolaridade, hipertensão, diabetes, IMC e nível de atividade física, o que confere robustez ao achado.

Os próprios autores reconhecem as limitações do trabalho, como o fato de o tempo de TV ter sido autorrelatado pelos participantes e a ausência de exames cerebrais no início do acompanhamento, há mais de duas décadas. Ainda assim, a pesquisa reforça a ideia de que a saúde cerebral na velhice é construída décadas antes, e que a qualidade do nosso tempo de lazer pode ser tão importante quanto a prática de exercícios físicos.

O debate sobre os malefícios do sedentarismo ganha, assim, uma nova camada de complexidade. A questão deixa de ser apenas sobre o tempo que passamos sentados, e passa a incluir o que fazemos com nosso cérebro durante esses períodos. A escolha entre um livro e o controle remoto pode ter implicações mais profundas do que se imaginava.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Olhar Digital