Um projeto inovador liderado pelo Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC) e o Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel), está desenvolvendo uma solução para levar conectividade à internet a regiões remotas e rurais do Brasil. A iniciativa, baseada na tecnologia TV White Space (TVWS), aproveita faixas de frequência da televisão que não estão em uso para criar redes terrestres de longa distância. O objetivo é driblar os altos custos e as dificuldades logísticas que impedem a expansão do 4G e 5G em áreas de baixa densidade populacional ou com grandes distâncias geográficas.

Potencial de Inclusão Digital

A tecnologia TVWS já é empregada em outros países, mas o projeto brasileiro se destaca por ter concebido, desenvolvido e validado em campo uma solução tecnológica nacional própria. Milton Kaoru Kashiwakura, diretor de Projetos Especiais e de Desenvolvimento do NIC.br, ressalta que a proposta foi adaptada às necessidades específicas do cenário brasileiro. Essa abordagem pioneira tem o potencial de complementar conexões via satélite, distribuindo o sinal localmente com menor latência e suporte a dispositivos de baixo custo, incluindo aqueles voltados para a Internet das Coisas (IoT). A meta principal é a inclusão digital, oferecendo um serviço acessível tanto para provedores regionais quanto para os consumidores que vivem no campo.

Mecanismo de Funcionamento

O funcionamento da solução TVWS depende de uma base de dados georreferenciada e de uma estação rádio base conectada à internet. Antes de iniciar qualquer transmissão, a estação consulta quais frequências da faixa de televisão estão disponíveis em uma determinada região. Um sensoriamento é então realizado para confirmar se os canais selecionados estão, de fato, desocupados. Caso um sinal de TV licenciado seja detectado, a frequência é descartada e o sistema busca novas opções, em um processo minucioso para evitar interferências com as emissoras de televisão. Essa metodologia permite a distribuição da conexão para diversos pontos, como residências, propriedades rurais, escolas e unidades de saúde, democratizando o acesso à informação e aos serviços digitais.

Testes e Viabilidade

O projeto passou por quatro fases de desenvolvimento, incluindo estudos de viabilidade, testes de campo, construção de protótipos e experimentos com múltiplos usuários. A etapa mais recente, realizada em Quixadá, no Ceará, conectou uma estação instalada no campus da UFC a pontos remotos da região. Os testes alcançaram velocidades de download de até 115 Mbps e mantiveram conexões de radiofrequência estáveis a distâncias de até 11,6 quilômetros. Esses resultados comprovam a viabilidade da tecnologia para áreas com extensas áreas e pouca infraestrutura. Paralelamente, foi desenvolvida a ferramenta Fiquespectro, que compila informações sobre canais ociosos e gera dados sobre o uso do espectro, podendo subsidiar a atuação da Anatel e otimizar modelos de propagação de sinal.

Perguntas em Aberto

A iniciativa agora foca em otimizar a tecnologia, reduzindo a necessidade de processamento, memória e energia, além de adaptar a solução para um hardware próprio de menor custo. A expectativa é que essa tecnologia possa ser uma ferramenta poderosa para reduzir o abismo digital no Brasil, conectando comunidades isoladas e impulsionando o desenvolvimento socioeconômico. A sustentabilidade econômica para provedores e a acessibilidade para usuários finais permanecem como pontos cruciais a serem observados na evolução do projeto.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Canaltech