O cinema de horror tem explorado as profundezas da psique materna, transformando a expectativa de uma nova vida em fonte de pavor e desconforto. "Nightborn", o segundo longa da cineasta finlandesa Hanna Bergholm após "Hatchling" (2022), insere-se nessa vertente, propondo uma visão sombria da maternidade através do folk horror. No entanto, a obra se perde em suas próprias ambições, evitando a lógica e a credibilidade em detrimento de uma narrativa que, embora repleta de tensões potenciais, falha em sustentar seu próprio universo.

A premissa acompanha Saga (Seidi Haarla) e Jon (Rupert Grint), um casal de classe média que decide se mudar para um refúgio familiar no campo. A atmosfera bucólica e a expectativa pela chegada do filho, inicialmente, criam um cenário de tranquilidade. Contudo, a adaptação do lar para a chegada do bebê, com decorações idílicas, contrasta brutalmente com a natureza monstruosa da criança que surge. O filme tenta usar essa dicotomia para explorar a psicose pós-parto e a transformação radical que um recém-nascido impõe à dinâmica de um casal. A maternidade de Saga é retratada de forma obsessiva, a ponto de ela recusar-se a ver o perigo em seu filho, que exibe comportamentos bizarros, como morder a mãe até sangrar e alimentar-se de carne crua.

A direção de Bergholm, contudo, opta por um caminho de absurdos. Em vez de aprofundar a angústia psicológica ou o horror sobrenatural de forma coesa, o filme descarta a lógica. Conflitos são forçados entre Saga e Jon, os pais religiosos dele, colegas de trabalho e até mesmo a equipe médica. Essa multiplicidade de antagonismos dilui o foco e enfraquece a narrativa central. Seidi Haarla entrega uma performance intensa, mas a cegueira de sua personagem diante da realidade monstruosa torna sua situação difícil de empatizar. Rupert Grint, por sua vez, parece deslocado no papel do pai preocupado, muitas vezes transmitindo uma leveza que não condiz com a gravidade da situação.

Comparado a obras de referência como "O Bebê de Rosemary" ou "Precisamos Falar Sobre Kevin", que souberam mesclar o horror psicológico com a maternidade de forma sofisticada e original, "Nightborn" demonstra uma falta de sutileza e profundidade. A tentativa de criar um conto de fadas sombrio sobre os desafios da parentalidade se esvai em clichês e em uma execução que privilegia o choque superficial em detrimento da construção de um terror genuíno e envolvente. O filme, em sua busca por um desfecho explosivo, acaba por revelar mais suas fragilidades do que qualquer insight sobre os medos inerentes à criação de um filho.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Little White Lies