A Nintendo reportou um resultado trimestral que surpreendeu até os analistas mais otimistas. O lucro operacional da gigante japonesa de games saltou 151% no período de abril a junho, alcançando 142,6 bilhões de ienes (cerca de US$ 903 milhões). O número esmagou a projeção média do mercado, que era de 70,3 bilhões de ienes, segundo dados da LSEG.

O desempenho, no entanto, tem uma explicação que vai além da venda de consoles e jogos. Um fator extraordinário e decisivo foi o reembolso de aproximadamente US$ 300 milhões em tarifas de importação que haviam sido impostas pelo governo Trump nos Estados Unidos. A Nintendo optou por absorver esses custos em vez de repassá-los aos consumidores na época, uma decisão estratégica que agora se converte em um ganho contábil expressivo, registrado como uma redução no custo de vendas.

O vento a favor de Washington

O reembolso bilionário, fruto de uma decisão da Suprema Corte americana que anulou as sobretaxas, funcionou como um potente anabolizante para os resultados. Trata-se de um evento não-recorrente que infla a linha final do balanço, mas que não reflete, por si só, uma mudança estrutural na operação. A gestão da Nintendo, ao não repassar o custo, apostou na manutenção de sua competitividade de preço e foi recompensada com um caixa inesperado anos depois.

Contudo, seria um erro atribuir todo o mérito ao fator externo. A demanda por software para o Switch, console que se aproxima do fim de seu ciclo de vida, e para o vindouro Switch 2, continua robusta. Analistas do setor, como Hideki Yasuda, da Toyo Research Advice, acreditam que a companhia está em uma trajetória para superar com folga sua própria meta de vendas de 16,5 milhões de unidades do novo console no ano fiscal.

O paradoxo do mercado

Apesar do resultado trimestral espetacular, o mercado de capitais parece cético. As ações da Nintendo acumulam uma queda de 28% no ano, performando muito abaixo do índice de referência Nikkei, que subiu 30% no mesmo período. A leitura dos investidores parece mirar além do balanço atual, focando nos desafios que se avizinham com a transição de hardware.

Duas preocupações centrais pesam sobre os papéis: o aumento nos preços de componentes, como memórias, que pode comprimir as margens de lucro do Switch 2; e a ausência de um título de peso garantido das franquias "Super Mario" ou "Zelda" para ancorar o lançamento. A própria Nintendo alimenta essa cautela ao manter uma previsão de vendas conservadora — uma tática clássica da empresa de prometer pouco para, idealmente, entregar muito.

O trimestre da Nintendo revela uma empresa com fundamentos operacionais sólidos, que recebeu um impulso financeiro fortuito. A questão que permanece é se essa demonstração de força, amplificada por um evento único, é um prenúncio de um novo ciclo de crescimento com o Switch 2 ou apenas um ponto alto antes de uma transição de hardware mais complexa do que os números atuais sugerem.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney