O avanço do nível do mar, uma consequência direta das mudanças climáticas, está prestes a redefinir as fronteiras costeiras da Europa e, com elas, o destino de sua biodiversidade marinha. Um estudo recente publicado na prestigiada revista Nature Ecology & Evolution lança um alerta: 122 espécies marinhas invasoras já estabelecidas em águas europeias encontram-se em posição de expansão, prontas para colonizar novos territórios que surgirão com a progressiva inundação de áreas litorâneas. A pesquisa modelou como a subida das águas, prevista para este século, criará habitats até então inexistentes, ideais para a proliferação desses organismos que já representam uma ameaça aos ecossistemas nativos.

Novos Litorais, Novos Invasores

A pesquisa, liderada por Qiang Lin e Xuan Liu, focou em 122 espécies não autóctones já presentes em ecossistemas europeus, como o caranguejo chinês de Xangai, a ostra do Pacífico e o camarão tigre asiático. O objetivo foi prever a extensão de novas áreas costeiras que se tornarão propícias à sua sobrevivência e reprodução à medida que o mar avança sobre terras atualmente secas. As projeções indicam que, dependendo do cenário climático, entre 290.000 e 470.000 quilômetros quadrados de novas zonas costeiras inundadas poderão apresentar condições favoráveis. Essa área equivale aproximadamente à superfície da Itália ou da Suécia, dependendo da estimativa. Mais preocupante ainda é a constatação de que mais de dois terços das áreas costeiras que serão inundadas em regiões onde essas espécies já estão presentes podem vir a ser colonizadas.

Estuários e Latitudes Médias na Mira

Os estuários, zonas de transição entre o rio e o mar, emergem como pontos de especial atenção. Sua natureza de "portas de entrada" e a intensa atividade humana associada a eles os tornam particularmente vulneráveis. À medida que a água avança, novos ambientes costeiros surgirão nesses locais, ampliando as oportunidades para espécies invasoras que já se encontram nas proximidades. As costas do Mar do Norte e outras regiões de latitudes médias foram identificadas como particularmente expostas a este fenômeno. O estudo também considera um cenário de emissões moderadas (SSP2-4.5), onde o nível médio do mar pode subir cerca de 20 centímetros até 2050 e 56 centímetros até 2100, alterando significativamente a linha costeira.

Uma Via de Invasão Pouco Explorada

Embora as invasões biológicas sejam uma causa conhecida de perda de biodiversidade e alteração de ecossistemas, este estudo aborda uma faceta menos explorada. Enquanto pesquisas anteriores se concentravam em como as mudanças climáticas deslocam a distribuição geográfica de espécies nativas, a colonização de terras recém-inundadas pela subida do mar não havia sido avaliada em escala global. Essa nova perspectiva identifica uma rota de expansão que pode ter sido subestimada em avaliações de risco anteriores, adicionando uma camada de complexidade à gestão da biodiversidade marinha.

Implicações e Futuro

A incorporação do aumento do nível do mar nos sistemas de vigilância ambiental pode ser crucial para antecipar impactos na biodiversidade, na produtividade pesqueira e nos serviços ecossistêmicos. Embora as projeções contenham incertezas e uma área inundada não garanta colonização imediata, as tendências apontam para um cenário onde as futuras mudanças do litoral europeu poderão favorecer significativamente as espécies invasoras. A gestão proativa e a monitorização contínua serão essenciais para mitigar os efeitos dessa nova onda de invasão biológica.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · El Confidencial — Tech