Para um militar embarcado, o tempo é medido em marcos. Cada dia é uma contagem regressiva para algo: a próxima escala em um porto, a cerimônia de cruzamento do Equador, e, finalmente, a data em que se sabe que, aconteça o que acontecer, a volta para casa é certa. Essa certeza é o que sustenta o foco na missão nos piores dias. Para os 5.000 marinheiros e fuzileiros navais a bordo do porta-aviões USS Abraham Lincoln, essa certeza se desfez.

O navio partiu de San Diego em novembro com retorno previsto para maio. Não aconteceu. Em meados deste ano, a embarcação ultrapassou 240 dias consecutivos no mar, uma das missões mais longas já registradas. A crise a bordo, detalhada em um ensaio contundente de um ex-oficial da Marinha para a revista The Atlantic, expõe mais do que uma falha logística; ela ilumina um padrão de descaso e a corrosão de um pacto fundamental entre o Estado e seus defensores.

O Contrato Social em Jogo

O nome do navio carrega uma ironia dolorosa. Foi Abraham Lincoln quem, em seu segundo discurso de posse, prometeu “cuidar daquele que suportou a batalha, e de sua viúva, e de seu órfão”. Essa promessa é a base do contrato social militar: o serviço em troca de cuidado e respeito. A bordo do porta-aviões, esse contrato parece ter sido rompido. Relatos apontam para acesso intermitente a comida, suprimentos básicos de higiene e correspondência, enquanto a tripulação executa operações de combate contínuas.

Segundo a reportagem, os problemas logísticos eram previsíveis. O dano a uma base principal no Bahrein em fevereiro, resultado de um ataque aéreo iraniano, forçou o desvio de suprimentos para Diego Garcia, uma ilha a mais de 3.500 quilômetros da zona de operação. A informação não foi tornada pública, e o Pentágono parece não ter planejado uma alternativa para um conflito prolongado. A resiliência dos marinheiros é testada não pelo inimigo, mas pela negligência de seu próprio comando, que os deixou à mercê do mau planejamento — ou da ausência dele.

Um Vácuo no Comando

A crise no USS Abraham Lincoln não é um evento isolado, mas o sintoma de um vácuo de liderança imposto de cima. Ao longo do ano, o Secretário de Defesa, Pete Hegseth, enfraqueceu o comando da Marinha ao bloquear a promoção de quase 20 almirantes, a maioria mulheres e minorias. Entre os barrados está a contra-almirante Amy Bauernschmidt, a primeira mulher a comandar um porta-aviões — por coincidência, o próprio USS Abraham Lincoln, entre 2021 e 2023.

Quando as famílias dos tripulantes levaram suas queixas à imprensa, a resposta do topo da cadeia de comando foi de desprezo. Um porta-voz do Pentágono disse que os desafios estavam sendo “distorcidos em uma narrativa falsa” e que os marinheiros precisavam endurecer. Hegseth culpou a “mídia americana imprudente e sem vergonha”. A conta de resposta rápida do Departamento de Defesa reagiu a relatos de falta de comida postando, duas vezes, que os marinheiros tinham sorvete. Questionado se a missão havia se estendido demais, o presidente Trump ironizou: “nem de longe o suficiente”. Essa cultura de desdém, que flui do topo, se torna o padrão permissível em toda a estrutura.

O USS Abraham Lincoln um dia voltará para casa. Outro navio o substituirá. Mas o retorno ao porto não é o fim da jornada. Para muitos tripulantes, o processo de reajuste durará o resto da vida, colidindo com um sistema de apoio a veteranos enfraquecido pela própria administração. A luz de alerta do estresse pós-traumático pode demorar anos para acender. O navio voltará ao porto. A questão é se seus marinheiros, de fato, conseguirão voltar para casa.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Atlantic — Ideas