A areia do Delta do Nilo guarda conversas milenares. A mais recente delas, revelada por arqueólogos em Tell El-Deir, não foi dita em palavras, mas esculpida em calcário. Mais de 20 estelas funerárias, marcadores de túmulos, emergiram do solo, trazendo à luz não apenas os rostos de egípcios de alta posição social, mas um panteão que desafia fronteiras geográficas e culturais.

Segundo o Conselho Supremo de Antiguidades do Egito, a descoberta é notável pela fusão de símbolos. Nas laterais e versos das peças, o grifo da Mesopotâmia convive com Agathodaemon, a serpente da boa sorte grega, e com Isis-Thermuthis, uma divindade sincrética que une a deusa egípcia Ísis à deusa da colheita Renenutet, mais tarde assimilada pelos próprios gregos.

Um diálogo em pedra

Este mosaico de crenças, segundo os especialistas envolvidos na escavação, só poderia ter surgido do longo contato do Egito com as culturas grega e romana, durante os períodos ptolomaico (305–30 a.C.) e romano (30 a.C.–642 d.C.). A qualidade dos entalhes sugere que os ocupantes das tumbas não eram cidadãos comuns, mas membros de uma elite que navegava com fluidez entre diferentes universos simbólicos. Não se tratava de uma apropriação superficial, mas de uma profunda integração cultural, manifestada no espaço mais íntimo e sagrado: o rito funerário.

A necrópole de Tell El-Deir, que esteve em uso contínuo desde o Período Tardio até o fim do domínio romano, revela-se agora não como um simples cemitério, mas, nas palavras de um dos responsáveis pelo conselho, como um "complexo funerário plenamente desenvolvido, refletindo uma identidade social, cultural e religiosa distinta". A presença de queimadores de incenso, lamparinas a óleo e amuletos reforça a imagem de um local de prática religiosa ativa e vibrante.

Cada peça desenterrada em Tell El-Deir é um fragmento de um mundo que se recusava a ser uma coisa só, onde a identidade era uma colagem e não um monólito. A questão que paira sobre as areias do Nilo não é apenas quem eram essas pessoas, mas em quantos mundos elas acreditavam ser possível viver — e morrer — ao mesmo tempo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews