Esqueça os cavalos de puro-sangue. No Hipódromo de la Zarzuela, em Madrid, a próxima grande corrida terá um tipo diferente de competidor. Milhares deles, de todas as raças e tamanhos, acompanhados de seus donos. Bem-vindo ao Perrotón, um evento que se autointitula “o maior da Europa para amantes de cães”. Mais do que uma simples corrida de 4,5 quilômetros, é um festival de lifestyle completo: há DJs, celebridades, uma “MasterClass de Dogga” (yoga para cães) e até uma área VIP. O evento, que espera mais de 5.000 duplas de humanos e caninos, é um sintoma eloquente de uma transformação cultural e econômica.

O fenômeno não é apenas folclórico; ele é sustentado por números robustos. A inscrição custa 20 euros, com 30% revertido para uma associação de bem-estar animal, mas o ecossistema ao redor é vasto. Patrocinado por gigantes como a Royal Canin, o Perrotón é a ponta do iceberg de uma indústria que movimenta quase 3 bilhões de euros anualmente na Espanha. Em um país com mais cães (7,6 milhões) do que crianças pequenas (cerca de 5 milhões), o gasto médio anual com um cachorro chega a 1.908 euros. Alimentação representa a maior fatia, mas serviços como veterinário, seguros e estética já compõem uma parte significativa do orçamento familiar.

Madrid não está sozinha. O modelo é inspirado em eventos consolidados nos Estados Unidos, como o Furry Scurry de Denver ou o Strut Your Mutt, que arrecada milhões de dólares para ONGs. Contudo, a versão madrilenha adiciona uma camada de glamour e identidade local, com a chancela honorária da rainha Sofía e a presença constante de figuras da televisão e da sociedade. O Perrotón funciona como um termômetro social: ele mede não apenas o amor pelos animais, mas a disposição de uma sociedade em construir um mercado sofisticado em torno desse afeto.

Em meio a exibições da polícia, castings para cães-atores e gastronomia para todos os gostos, a corrida em si parece quase secundária. O que se celebra no gramado do hipódromo não é a velocidade, mas a centralidade do animal de estimação na vida urbana contemporânea. A questão que paira no ar, ao som da DJ residente, não é quem cruzará a linha de chegada primeiro, mas o que esse festival realmente representa: a consolidação do pet como um novo centro da vida afetiva e econômica ou apenas a mais recente e bem-sucedida invenção da indústria do lifestyle.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka