A principal associação do setor de grãos da Rússia emitiu um alerta contundente: ataques de drones ucranianos contra sua infraestrutura portuária e navios no Mar Negro representam uma “ameaça direta à segurança alimentar global”. Segundo a entidade, em comunicado à agência Reuters, a continuidade das ações pode interromper as exportações russas e provocar uma crise de abastecimento em nações da África e do Oriente Médio.

O alerta não ocorre no vácuo. Ele é o mais recente capítulo de uma guerra de atrito que se estende dos campos de batalha para as rotas comerciais. Tanto a Rússia quanto a Ucrânia, dois dos maiores exportadores agrícolas do mundo, têm trocado ataques a instalações de exportação nas últimas semanas, transformando o Mar Negro num tabuleiro de alto risco onde a próxima jogada pode impactar o preço do pão em continentes distantes.

A geopolítica do trigo

A disputa transcende a retórica de guerra. O controle das rotas do Mar Negro é uma alavanca estratégica de poder. A União Russa de Exportadores de Grãos projeta um cenário em que uma interrupção prolongada poderia retirar do mercado entre 30 e 35 milhões de toneladas de trigo russo, cerca de 15% do comércio global. Tal déficit, argumentam, seria impossível de cobrir por outros fornecedores no curto prazo.

As consequências seriam sentidas nos mercados futuros. A associação russa prevê que o preço do trigo pode saltar para a faixa de US$ 340 a US$ 370 por tonelada, com potencial para ultrapassar os US$ 400. Para países importadores com menor poder de compra, o resultado seria uma inflação de alimentos e, no limite, a fome. A ameaça, portanto, funciona como um instrumento de pressão diplomática sobre a comunidade internacional e, em especial, sobre as nações que dependem do grão da região.

O jogo de espelhos

Enquanto Moscou aponta o dedo para os drones de Kiev, a Ucrânia e seus aliados apresentam uma narrativa oposta. O presidente Volodymyr Zelenskiy afirma que os ataques russos à navegação são a verdadeira ameaça, ecoando o argumento de que a Rússia tem sistematicamente minado a segurança alimentar desde que abandonou o acordo de grãos mediado pela ONU.

Ambos os lados reportam ações militares. O Ministério da Defesa russo afirmou ter atacado dezenas de embarcações ligadas às forças ucranianas. Por outro lado, fontes do mercado confirmam danos significativos a um terminal de grãos russo no porto de Taman, atribuídos a um ataque ucraniano. A escalada é mútua e cria um ciclo de acusações em que se torna cada vez mais difícil para observadores externos atribuírem a culpa exclusiva a um dos lados.

Para os países importadores, a distinção entre quem ataca e quem retalia torna-se secundária diante da alta dos preços e do risco de desabastecimento. A guerra no Mar Negro mostra que, no século 21, o controle das cadeias de suprimentos pode ser uma arma tão potente quanto o arsenal militar, e a batalha pela narrativa é parte central do conflito.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times