A Uber demitiu recentemente cerca de 3.300 funcionários, e para alguns dos dispensados, a causa tem menos a ver com a justificativa oficial da empresa e mais com um novo colega de trabalho: a inteligência artificial. Segundo reportagem do Business Insider, que ouviu seis ex-funcionários, ferramentas de IA já haviam se tornado parte central do dia a dia em diversas áreas, automatizando desde respostas de suporte ao cliente até a resolução de dúvidas internas.
A narrativa oficial, comunicada pelo CEO Dara Khosrowshahi, foi a de uma reestruturação para eliminar “camadas de gestão” e times excessivamente pequenos. A IA não foi mencionada no memorando. A leitura que emerge dos relatos, no entanto, é a de que o ganho de produtividade habilitado pela tecnologia criou o cenário perfeito para os cortes, mesmo que a empresa não o admita abertamente.
A IA como colega de trabalho
Longe de ser um plano futuro, a IA no Uber já é uma realidade operacional. Funcionários descreveram o uso de um chatbot interno chamado ‘Genie’, que responde a perguntas em canais de Slack com base na documentação da empresa, assumindo um papel que antes caberia a gestores. No atendimento a motoristas e passageiros, outra ferramenta, a Glean, era usada para gerar respostas que, muitas vezes, eram simplesmente copiadas e coladas.
O impacto na eficiência é palpável. Um dos demitidos afirmou que uma ferramenta de IA reduziu o tempo necessário para executar seu trabalho a um quinto do que era antes. A frase de um deles resume o sentimento: “A IA definitivamente parece a dinamite debaixo da ponte para muitos de nós”. É a materialização do debate sobre automação: a tecnologia que aumenta a produtividade individual pode, em escala, tornar o próprio indivíduo redundante.
O discurso duplo da eficiência
A ambiguidade parece ser a estratégia. Enquanto o memorando de demissão focava em organograma, o próprio Khosrowshahi, em uma conferência posterior, admitiu que a reestruturação era uma oportunidade para capitalizar sobre “ventos favoráveis reais em relação à produtividade, seja da IA ou de tecnologia em geral”. A declaração conecta os pontos que a comunicação interna deixou em aberto.
Internamente, a política sobre o uso da IA parece ser contraditória. Alguns gestores incentivavam ativamente o uso de ChatGPT e Gemini para preparar reuniões, enquanto outros alertavam os times a não dependerem das ferramentas para fazer seu trabalho. Essa tensão reflete um dilema maior: as empresas correm para implementar IA para cortar custos e aumentar a eficiência, mas ainda lutam para definir as novas fronteiras do trabalho humano.
O caso da Uber é um microcosmo do que o mercado de trabalho corporativo enfrenta em escala. A narrativa do “copiloto” que aumenta a capacidade humana está sendo testada pela lógica fria dos balanços financeiros. A questão não é se a IA pode fazer o trabalho, mas o que acontece quando ela o faz “bem o suficiente” para justificar a redução de pessoal. A linha entre assistente e substituto torna-se cada vez mais tênue.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Business Insider





